Espaço do Diário do Minho

Uma nova relação?
5 Jun 2018
Luís Martins

Talvez sim, talvez não. Pelo que sobressaiu da reunião magna socialista, ter-se-ão apresentado e clarificado duas tendências: a de António Costa, inclinado a divorciar-se dos parceiros actuais e a começar a namorar outro diferente, e a de Pedro Nuno Santos, mais conservador e aguerrido defensor da manutenção da relação actual. Mas, pode ser tudo uma encenação. Os próximos meses serão elucidativos.

A força partidária que hoje tem apenas a segunda maior bancada parlamentar, mas que governa o país por força do casamento celebrado logo após as últimas legislativas, anseia passar à frente.

Idealmente, desejaria ter aquela maioria que lhe permitisse governar sem condicionamentos de terceiros, mas tem a noção de que será extremamente difícil, apesar das sondagens alimentarem o objectivo. E neste enquadramento, pagar a despesa sozinho é muito arriscado, aconselhando a prudência uma parceria de assunção de responsabilidades e que robusteça a solução de governo.

O aparecimento das tendências referidas têm a ver com esse constrangimento. Em primeiro lugar, não ficar, para já, mal com ninguém; depois, assegurar de um e/ou de outro lado do espectro político, a aprovação do próximo Orçamento; finalmente, não ficar só para poder governar com alguma estabilidade.

Mas, voltando às tendências, no conjunto, são complementares: uma propõe-se seguir o caminho que vem sendo trilhado; a outra sabe que os amigos europeus vão querer pôr um travão nas iniciativas dos parceiros da relação que ainda existe e, ciente da impossibilidade de governar só, pretende mudar de par, trocar por um que aceite melhor o pensamento dominante.

São tudo conjecturas, mas talvez aquelas tendências existam mesmo e não sejam teatro. Nesse caso, alguma vai ter de ceder se o Partido Socialista quiser manter o poder. As últimas legislativas deram para perceber, e bem, que o partido que tiver mais deputados não é o que constitui necessariamente governo.

O esquecimento disso pode levar a surpresas. Defendo que foi benéfica a solução encontrada porque entendo que um governo deve ter sempre o apoio da maioria absoluta de representantes dos cidadãos para que estes se revejam em quem governa e aquele governe em função de um conjunto mais lato possível de interesses.

Tenho para mim que a maioria dos portugueses, politicamente mais à direita ou mais à esquerda, estão convencidos de que lhes é mais favorável um Parlamento de maioria relativa do que haver um só partido com maioria absoluta. Este convencimento parece ir no mesmo sentido até entre socialistas que se expressaram logo após o Congresso da Batalha. Se for assim, essa maioria de eleitores precisa de ser consequente: evitar delegar num ou noutro partido que, por si só, possa fazer ou desfazer sem que outro ou outros tenham que completar a maioria.

A este respeito, foi afirmado por alguns protagonistas que, se o partido vier a ter maioria absoluta, ouvirá sempre a oposição. Sabemos que nenhum o fez até ao momento. Nem fará agora diferente. Além do mais, o verbo ouvir tem sido usado hipocritamente.

Tem-se dito que se ouviu – e isso já aconteceu com diferentes governos – sem que tal tenha produzido consequências. Ouvir tem que significar também acolher, respeitar o que o outro diz, pensa e quer.

A maioria absoluta de um só partido – já o experimentamos antes – será sempre prejudicial para o país e para os cidadãos, seja qual for que a detenha. Tenho a convicção de que a grande maioria dos eleitores não é, hoje, apologista de entregar o poder a um único partido, incluindo àquele a que esteja ligado por filiação ou simpatia.

Para terminar e voltar ao princípio, dizer apenas que Costa sabe que a relação que hoje mantém não o manterá como primeiro-ministro na próxima legislatura – um negócio ou é bom para todos ou acaba, e só o tem beneficiado a ele –, além de que a Europa o tem convencido a mudar, pelo que não será grande risco admitir que os papéis para o divórcio já os tem preparados, para o que der e vier.



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