Fotografia: Avelino Lima
D. Francisco desafia os movimentos eclesiais à renovação permanente

Em entrevista ao Diário do Minho, o bispo auxiliar de Braga, D. Francisco Senra Coelho, prevê uma Vigília do Pentecostes «memorável».

Alexandre Gonzaga
11 Mai 2018

Diário do Minho (DM) – Qual o lugar dos movimentos eclesiais no seio da Igreja católica?

D. Francisco Senra Coelho (FSC) – Gostaria de começar por recordar que Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu que estaria sempre com a sua Igreja até ao fim dos tempos, que jamais sentiria o seu abandono. Ao longo de 2000 anos têm surgido no seio da Igreja carismas que estão ao serviço da comunidade em diversas vertentes: a solidariedade, oração e espiritualidade, acolhimento de peregrinos, pessoas pobres e crianças orfãs, vítimas de doenças incuráveis, e ainda dedicados ao apoio da família ou ao serviço da liturgia, com dinâmicas de primeiro anúncio da fé. Ou seja, existem carismas nas áreas da palavra, liturgia e comunidade 

DM – Surgiram em determinado contexto…

FSC – Sim. Digamos que todos os movimentos têm “data e locaçlização geográfica”. Nasceram num contexto bem concreto da história, num tempo e uma localidade. Só se entendem os movimentos numa dimensão de enraizamento humano, em circunstâncias concretas para o serviço concreto e para pessoas com rosto. 

DM – Isso também significa uma atualização permanente para não perderem a sua missão e atratividade….

FSC – Alguns podem perder a sua atualidade se não se abrirem à renovação. Todos são chamados a serem fiéis ao carisma fundacional, mas, todos são desafiados aos apelos da renovação, nomeadamente aos apelos que nos chegam ultimamente pelo Papa Francisco. Alguns estão anquilosados, arcaicos e não se abrem à renovação.

DM – Muitos movimentos sofreram metamorfoses profundas….

FSC – Ao longos destes dois milénios surgiram inúmeros movimentos e, alguns, desenvolveram-se para institutos e ordens religiosas, e outros permanecem com uma dimensão laical  acentuada. Todos possuem uma característica de eclesialidade imprescindível, pois, não crescem para si próprios, mas para o serviço da humanidade e da Igreja.

DM – Pode descrever em poucas palavras em que contexto surgiram esses movimentos?

FSC – Por exemplo, a partir dos meados do século XIX, com a Revoluação Industrial, Antoine Frédéric Ozanam suscitou no contexto da pobreza dos operários, aglomerados em bairros de lata em volta dos grandes centros urbanos, a partilha fraterna e solidária através das Conferências Vicentinas, que perduram até hoje.

No princípio do século XX, na Irlanda, a figurta de Frank Duff fez nascer o movimento Legião de Maria na visita domiciliária às pessoas sem fé  e, por isso, sem esperança ou sentido para a vida, em circunstâncias muito complexas que antecederam a I Guerra Mundial (1914-18). 

Também lembro os período entre as grandes guerras, no contexto alemão, próximo da cidade de Koblenz… o padre Joseph Kentenich funda o Movimento de Schoenstatt, com um conjunto enorme de comunidades para homens, mulheres, jovens, de vida contemplativa e ativa, sempre numa perspetiva de aliança de amor com Maria.

DM – O padre Kentenich sofreu as agruras dos campos de concentração…

FSC – Ele viveu no campo de concentração de Dachau, onde experimentou os rigores nazis. Sobreviveu ao pesadelo nessa aliança de amor  com Maria, permanecendo na esperança cristã naquele contextos.

Como não recordar, igualmente, em plena guerra mundial, a figura de Chiara Lubich, da cidade de Trento, fundadora do movimento Focolare, com carisma da unidade. E ainda Eduardo Bonnin, natural de Palma de Maiorca, que, depois de ter participado na Guerra Civil de Espanha, entre 1936 e 1939, e na Guerra Mundial 1939-45, inaugurou os Cursilhos de Cristandade, tornando possível um anúncio “a cores” e não “cinzento”, marcado pelas cinzas da morte depois de uma guerra mundial.

DM – Muitos movimentos, muitos carismas…

FSC – Como não recordar o padre Luigi Giussani, fundador do movimento Comunhão e Libertação, ou o cardeal Joseph Suenens, que trouxe para a Igreja Católica o Renovamento Carismático vindo das igrejas irmãs reformadas, nomeadamente, as evangélicas; e, ainda,  como não recordar Kiko Arguello e Cármen Hernández, fundadores do Caminho Neocatecumenal, com mais de 50 anos de história.

DM – O que esperar da jornada arquidiocesana dedicada aos movimentos na vigília de Pentecostes em Braga? 

FSC – Celebrar os movimentos eclesiais é celebrar os carismas da Igreja, muito concretamente neste nosso tempo, marcado pelo individualismo e por uma perca do sentido para a vida. No dia 19 de maio, queremos agradecer a Deus os cerca de 30 movimentos eclesiais presentes na Arquidiocese de Braga que reunirão num gesto de esperança, compartilhando com toda a sociedade a alegria que lhe vem da fé.

DM – Na verdade, a vigília começa no dia anterior.

FSC – Sim. Começa com a atividade “Noite UP’S – Uma Direta com Deus”, organizada pelo grupo Peregrinos. Trata-se da primeira parte da Vigília do Pentecostes, que inicia no dia 18 de maio, às 21h18, na Basílica dos Congregados. Depois da eucaristia, às 22h30, os participantes peregrinarão ao Santuário do Sameiro, regressando à basílica no dia seguinte, dia 19, às 08h15. 

Nesse dia sucedem-se momentos de oração-reflexão em outras quatro igrejas da cidade e devidamente animados pelos movimentos eclesiais  da Arquidiocese de Braga. Será memorável!




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