Espaço do Diário do Minho

Ser ou parecer?
7 Mai 2018
Albino Gonçalves

A nossa vida é uma vertigem, tudo é uma pressa e a velocidade torneia o quotidiano da sobrevivência humana.

Já não há paciência para trocar um olhar assertivo. Comportamo-nos ao estilo de autómatos, desprovidos de alma e de emoções, absortos do esforço no conhecimento e consequentemente tropeçamos na eficácia do desempenho e já não damos conta se somos ou parecemos.

Já vi acontecer coisas piores. No entanto, imunes à presença de quem nos procura na prestação do serviço público, já me surpreende encontrar alguém que nos olha nos olhos, e sem contagem de tempo no atendimento ao cidadão encena um sorriso rasgado e sincero e vai ao encontro da satisfação das necessidades explanadas pelos utentes.

Como é apanágio da opinião pública, interroga-se se o verdadeiro responsável pelo desconhecimento de determinada matéria não será o que predestinou alguém impreparado no exercício de tarefas contextualizadas no saber fazer, saber ser, saber estar e, fundamentalmente, ser detentor da sapiência culturalmente profissional.

Que o diga um utente, quando procura indagar os serviços incumbidos para o efeito, sobre os procedimentos processuais para a doação dos seus órgãos, após a sua morte.

Vamos ao relato: Após várias peripécias e destituída da eficácia do apoio por vários internos, esperançada de ir ao sítio certo, resolveu, como ultimato, deslocar-se ao Serviço Social do Hospital da sua área, onde a dita Técnica de Assistência Social a aconselhou a telefonar para o Serviço de Transplante de outro Hospital.

Perplexa e com a “pulga atrás da orelha”, a utente lá aceitou a “douta” recomendação e foi atendida do outro lado da linha por alguém se intitulou “secretária do administrador”, e como não soube responder à questão, sugeriu à cidadã que indagasse o Instituto de Médico Legal sobre a matéria.

Neste trajecto de “pingue-pongue”, em que a bola se centra na pessoa do utente, o IML estranhou o procedimento e educadamente orienta a paciente para um novo contacto o Hospital de referência.

Já farta, persiste e resolve voltar à carga encetando novo telefonema para o seu Hospital para ser atendida e esclarecida por alguém que estivesse dentro do assunto.

Repete-se a cena com uma profissional, sem respostas às perguntas e rendida irrepreensivelmente ao desconhecimento dos procedimentos processuais de como doar órgãos humanos, não teve alternativa senão aconselhar à potencial manifesta doadora que escrevesse uma carta ao conselho de administração a expor a sua intenção de doar órgãos, “listá-los” e depois aguardar a respectiva resposta.

Os cidadãos têm o direito de serem informados, sendo da responsabilidade do receptor do sistema de saúde pública monitorizar espaços e os seus recursos humanos sem titubear o dever de informar os direitos inalienáveis dos utentes diminuídos do conhecimento das práticas em execução no âmbito da saúde pública.

Conclusão: A cidadã candidata a doadora dos seus órgãos testemunhou o fiasco de vários serviços de dois hospitais para se informar quais os desígnios processuais na doação de órgãos humanos, transmitindo à nossa interlocutora e a outros cidadãos uma ideia “monocórdica” da imagem negativa e empírica gerada por falta de formação profissional muitas vezes substituída pelo exímio do ser pelo parecer, que acaba por cansar e desinteressar a participação de cidadania aliada à campanha de sensibilização de doação de órgãos humanos, expressivamente uma necessidade nacional e elementar para salvar vidas humanas.



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