Espaço do Diário do Minho

“Maio, maduro Maio…”
30 Abr 2018
Narciso Mendes

1. Conheci nos tempos do regime deposto pela revolução dos cravos, em 1974, uma entidade patronal, do espetro empresarial bracarense, que todos os anos a 1 de maio fazia questão de celebrar, com os seus cerca de 30 funcionários, o “dia do trabalhador”.

E após uma partida de futebol no campo do Seminário Carmelita do Sameiro, cujo início da construção data de 31 de maio de 64, aí pelas 13 horas, fazia questão de lhes pagar um lauto repasto num restaurante local. É que ele próprio se considerava um trabalhador, não só por contribuir monetariamente para a Segurança Social, como também por ter a empresa com as suas obrigações fiscais em dia, à qual dava sempre o melhor de si.

Um verdadeiro exemplo de empresário que sabia cativar os seus funcionários, pagando-lhes acima dos valores acordados entre o Sindicato e a Associação.

Um procedimento que lhe valeu o epíteto de comunista, de que nunca mais se conseguiria libertar, uma vez que as suas maiores amizades se situavam na chamada esquerda política, avessa ao regime de então. Tendo, em (?) maiode um dos anos 60, conseguido um visto para – com esses amigos – visitar a União Soviética. De onde dizia não ter encontrado vadios, nem notívagos nas ruas, dado que o recolher obrigatório os impelia a deitarem-se a horas decentes, para trabalharem no dia seguinte.

Também questionava as pessoas,sabedoras da sua ida a Moscovo, sobre quantos quartos tinha o hotel em que se hospedara. As quais, normalmente, atiravam para as duas ou três centenas. Informando-as, vincadamente, serem mais de dois mil. Por isso, arrisco dizer que deve, também, a gente como ele o amadurecer do 1.º de maio.

2. Ora, segundo os cânones da política, ser militar é estar ao lado do povo e, por conseguinte, dos trabalhadores. Razão pela qual os rapazes dos tanques viriam a ser os obreiros da queda do regime anterior. Daí, terem tomado em mãos a revolta após o amadurecer de certas questões sociais e políticas.

Aliás, passo a transcrever a missiva que eu e mais quatro militares, da incorporação de Maio de 69, do SMO, enviamos ao senhor Presidente do Conselhode Ministros, professor Marcelo Caetano, em 1 de maio de 1971:

Rogamos a Vossa Excelência se digne atender ao conteúdo da presente missiva pedindo, antecipadamente, desculpa pelo tempo que lhe iremos tomar:

a). Causou certa indignação no meio militar a recente afixação de cartazes, nas respetivas unidades, alusivos a “preços reduzidos” para militares, nos comboios da CP, a vigorarem a partir de 1 de junho de 1971.

b). A nova tabela de preços não tem, certamente, o título mais adequado, porquanto se verificou um aumento e não um decréscimo em relação à vigente.

c). Tal acréscimo seria justo se a reforma que se propõe fazer na CP tivesse sido uma realidade, o que não é. Para além disso, existem horários que não satisfazem os nossos interesses.

d). Se já é difícil suportarmos – atualmente – os custos das viagens, com tal “bonomia” (?) ser-nos-á mais custoso, ainda, ir de fim-de- semana ou de licença visitar a família.

e). Sabemos que no plano internacional os defensores da pátria usufruem de condições que possibilitam viagens mais económicas ou, até mesmo, gratuitas.

f). Não queremos, de modo algum, usufruir de vantagens que prejudiquem a economia do país, mas compreenderá a situação de termos que permanecer nas unidades – sem atividade – dando despesa.

g). Já é bastante o tempo que lhe tomamos mas estamos certos que – para uma revindicação justa – tomará a decisão certa.

Em nome da comunidade militar, da B. A. 7, estacionada em Jacinto, Aveiro, endereçamos a Vossa Excelência os mais respeitosos cumprimentos. A bem da nação. (Seguem-se as identificações).

Até maio de 72, altura em que passamos à disponibilidade, a resposta foi nenhuma. No entanto, o que tornou maio maduro foram as atitudes tomadas antes de Abril de 74. E ao mês que já era da Virgem Maria, apenas foi acrescentado o dia da mãe e, a um, o feriado nacional.



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