Espaço do Diário do Minho

Santidade em família

23 Abr 2018
António Sílvio Couto

À luz da mais recente exortação apostólica do Papa Francisco – ‘Alegrai-vos e exultai’ – somos todos e cada um chamados a viver a santidade, sobretudo, em família.

Diz o Papa: «Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais» (n.º 14).

Ora, diante deste tão amplo e significativo desafio nenhum de nós, seja qual for a sua vocação, o seu estado de vida ou até a sua idade poderá deixar de sentir-se chamado a traduzir a santidade em gestos, palavras e sinais simples, visíveis e humildes.

Será à luz da exortação do Papa Francisco que iremos procurar viver, na paróquia onde estou há quase quatrocentas semanas, o tempo do mês de maio, servindo-nos do texto de ‘Alegrai-vos e exultai’ para a meditação dos mistérios do Rosário e incluindo em cada dezena uma vertente da família… em sentido estrito e alargado. Assim, nos mistérios gozosos temos em conta o primeiro capítulo da exortação, sob o título de ‘o chamamento à santidade’ e rezamos, nas cinco dezenas, respetivamente, por marido, esposa, mãe, pai e filhos. Nos mistérios dolorosos abordamos a temática do segundo capítulo – ‘dois inimigos subtis da santidade’ – e colocamo-nos em intercessão pelos avós paternos e maternos, os netos, os irmãos e os primos. Nos mistérios luminosos temos com ponto de referência o quarto capítulo da exortação papal – ‘algumas caraterísticas da santidade no mundo atual’ – e rezamos, no contexto familiar, pelo sogro, a sogra, genro e nora e ainda pelos cunhados. Quanto aos mistérios gloriosos seguiremos na reflexão da exortação apostólica o capítulo quinto – ‘luta, vigilância e discernimento’ – e teremos em conta a intercessão pelos tios, sobrinhos, padrinhos e afilhados, padrasto/madrasta e ainda os enteados…

Como poderá ser a família ‘escola de santidade’?

Na medida dos aspetos controversos e complexos, das questões mais ou menos delicadas e hipersensíveis, dos problemas a tratar com pinças pela sua conjuntura e urgência, ousar colocar a família como espaço de santidade poderá parecer algo de utópico, no mais lídimo sentido da obra de Tomás Moro: será um ‘sem-lugar’ ou antes um lugar-ideal a construir de forma eclesial? Tornar a família ‘escola de santidade’ será mais uma vocação ou uma missão?

Atendendo às multíplices feridas de tantas famílias do nosso tempo, torna-se muito delicado abordar esta questão, pois não haverá, por certo, nenhuma família onde não se encontre quem possa apresentar um caso, no mínimo, de anomalia entre algum dos seus membros. Como sentir aí esse chamamento à santidade, se o que se vê ou revela, é antes o seu contrário? Como atender ou mesmo entender a complexidade das novas situações entre os magoados e até traumatizados? Como se poderá responder a quem se sinta em crise ou a tentar ultrapassar escolhas subsequentes às opções remendadas?

Talvez tenhamos de reciclar muitos dos entendimentos rigoristas, abrindo perspetivas a quem possa estar abrangido pelas marcas de trocas e de mudanças. Só quem não tenha coração compreensivo e espírito sensato poderá exigir que se mantenham condições onde o bom senso já expirou de validade. Neste, como em tantos outros aspetos da vida, poderemos usar como critério a sentença de Jesus: quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra de acusação, de julgamento ou de legalismo…

Fazer da família uma nova oportunidade de viver a santidade é algo mais do que uma miragem, na medida em que há tantos casais e famílias que procuram viver na fidelidade e na união com grande esforço e empenho de tantos dos seus membros… Embora as exceções sejam algumas, a regra ainda tem força de vida. 



Mais de António Sílvio Couto

António Sílvio Couto - 25 Jan 2021

O paradoxal momento que estamos a viver desta pandemia pode – ou será que deve? – provocar em nós (pessoal, familiar ou socialmente) uma leitura de contrastes: densas e profundas sombras/trevas cobrem o nosso ‘eu’ coletivo, enquanto ténues e frágeis luzes parecem despontar… Numa quase ousadia, cito um documento da Igreja católica de meados do […]

António Sílvio Couto - 18 Jan 2021

Escutei, de repente, esta frase-chavão num diálogo de telenovela: está a caducar!… numa explicação sobre o interlocutor, que estaria a dizer coisas que não batiam bem com aquilo que era mais acertado, ao momento e muito menos à conveniência. ‘Caducar’ poderá ser uma forma verbal que nos vem do substantivo ‘caduco’ – ‘caducus’, ‘que cai’ […]

António Sílvio Couto - 11 Jan 2021

Não será difícil de resumir a nossa vida política nacional – depois da revolução de 25 de abril – à configuração das décadas na Presidência da República e dos contraciclos governamentais na relação entre os ocupantes do Palácio de Belém e a residência de São Bento. Em quase cinquenta anos de ‘democracia’ tivemos quatro presidentes […]


Scroll Up