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Paisagens fabulosas, gastronomia excelente e pessoas hospitaleiras, com histórias e tradições para dar a conhecer, são alguns dos encantos de Montalegre. Atreve-se a partir à descoberta?

Luísa Teresa Ribeiro
9 Abr 2018

Com uma extensão de 800 km2, Montalegre tem uma grande riqueza paisagística, cultural e gastronómica para mostrar aos visitantes. Foi a pensar na preservação e divulgação dos «elementos únicos e distintivos» deste concelho que foi criado o Ecomuseu de Barroso, que também abrange Boticas.

A vereadora da Educação da Câmara de Montalegre refere que este é um «museu diferente dos outros». «Este não é um museu em que as pessoas entram, veem e vão-se embora para casa. Este é um museu vivo. É uma maneira de aguçar a curiosidade, o apetite para as pessoas partirem para o território e experienciarem o que ele tem para oferecer», afirma Fátima Fernandes.

O polo central deste projeto de «preservação e divulgação do território do Barroso» está localizado em Montalegre, no Espaço Padre Fontes, junto ao castelo, onde os turistas podem, através de visitas interativas, ficar com uma ideia dos mais de mil pontos de interesse que podem encontrar.

No concelho de Montalegre, o Ecomuseu de Barroso tem os polos de Pitões das Júnias (Corte do Boi), Salto (Casa do Capitão), Tourém (Centro Interpretativo da Avifauna da Região), Borralha (Centro Interpretativo das Minas da Borralha), Vilar de Perdizes (Casa do Lavrador), Paredes do Rio (Aldeia Ecomuseu), Fafião (Vezeira e a Serra).

A mesma responsável sublinha que, embora a identidade seja una, há «especificidades» consoante se esteja no Baixo Barroso, nos lameiros ou no planalto barrosão.

«É esta diversidade que faz com que o concelho tenha produtos gastronómicos de excelente qualidade, como a carne barrosã, o cabrito, o porco ou a batata», assegura.

Em relação ao fumeiro, importante atividade para a economia do concelho, Fátima Fernandes destaca o controlo de qualidade para que quem vai à Feira do Fumeiro de Montalegre «não compre gato por lebre». Os porcos são marcados pelo veterinário municipal. Só esses animais podem ser comercializados no certame que anualmente atrai milhares de pessoas ao concelho.

Pitões das Júnias luta para manter tradições

 

O polo do Ecomuseu instalado no espaço onde antigamente era guardado o boi do povo – o pagamento era feito em função do número de vacas que cada casa tinha –, o forno comunitário recuperado e apto a cozer e o mosteiro de Santa Maria das Júnias são alguns dos pontos obrigatórios para quem visita Pitões da Júnias.

A presidente da Junta de Freguesia, Lúcia Jorge, fala de um modo apaixonado de Pitões das Júnias e de todo o seu potencial. Como tantas outras pessoas da aldeia, saiu para estudar e atualmente trabalha fora durante a semana. A determinado momento sentiu que tinha a missão de dar o seu contributo para a futuro da terra.

A aldeia tem cerca de 170 habitantes, dos quais 140 em permanência. Em Pitões das Júnias há 15 crianças, encaradas como verdadeiros tesouros em terras em luta contra a desertificação.

«Queremos que as pessoas continuem a sua atividade agropecuária, principal fonte de sustento da aldeia, mas que também aproveitem o turismo. Temos, por isso, incentivado a população a recuperar as suas casas para alojamento local», refere a autarca.

Pão do forno de pedra tem um sabor diferente

Com um sorriso, Gracinda Marinho distribui o pão de centeio acabado de fazer. Para além do amor com que foi feito, este pão tem um ingrediente especial: foi cozido no forno comunitário de Pitões das Júnias.

Com 48 anos, esta mulher tem a vida ligada ao forno da aldeia. Foi criada a ver cozer. Ainda criança, dormiu ali várias noites enquanto o pão cozia. A Padaria Pitões havia de se tornar a sua vida.

Atualmente com nove carros a fazerem diariamente a distribuição dos artigos da sua padaria, Gracinda Marinho só ocasionalmente volta ao forno onde tudo começou e onde está uma parte do seu coração. O pão feito no forno de pedra é especial, reconhece.

Carolina Gonçalinho, de 78 anos, concorda. «O pão da pedra tem um sabor diferente», afirma, explicando que o fermento caseiro é outro ingrediente que faz a diferença. «Antigamente íamos ao moinho. Cozíamos à vez no forno, que só parava aos domingos», recorda.

Casa típica barrosã recriada em Salto

Instalado na Casa do Capitão (representante da autoridade e do poder), o polo da vila de Salto do Ecomuseu de Barroso propõe uma viagem etnográfica a uma casa típica barrosã.

Com mais de mil peças recolhidas, tratadas e inventariadas, este núcleo museológico permite recuar no tempo para ver desde alfaias agrícolas, mobília e utensílios domésticos até aos trajes locais de outras épocas.

Referência também para algumas histórias relacionadas com a presença de D. Nuno Álvares Pereira no Barroso.

Fafião afirma-se pelo comunitarismo

Noutros tempos, em Fafião, tudo era comunitário, como a vezeira, o lagar de azeite ou os moinhos. Tudo era de todos.

A evolução fez com que algumas tradições se perdessem, mas a vezeira das vacas e das cabras mantém-se. Tal como antigamente, há datas para a subida das vacas para o monte e o número de noites que os proprietários passam na serra com os animais, à vez, depende do número de cabeças de gado que cada um tem.

A luta por manter esta identidade baseada no comunitarismo é permanente, assim como a dinamização de atividades que fixem a população e chamem visitantes.

Muito deste trabalho está a ser feito a partir do polo do Ecomuseu de Barroso “Vezeira e a Serra”, gerido pela Associação Vezeira.

Lino Matos Pereira refere que o objetivo é o turismo sustentável, em vez do turismo de massas, que iria destruir a identidade da aldeia. Localizada no Baixo Barroso, as tradições da comunidade foram influenciadas pela cultura minhota.

Dada a importância da pecuária, o lobo está no centro de um dos pontos obrigatórios de visita em Fafião.

No inverno, altura em que os animais desciam da serra, o lobo vinha atrás deles. Para proteger a aldeia foi construído um fojo, que está visitável e no qual a associação quer fazer uma encenação no próximo verão

Uma das “estórias” desta comunidade conta que foi feita uma grande caçada, tendo sido capturados três dos quatro lobos que rondavam a aldeia. A festa foi tal que acabaram por nascer 20 crianças na aldeia.

Museu perpetua memória das Minas da Borralha

A Câmara Municipal de Montalegre quer abrir uma galeria ao público para que os visitantes possam entrar nas entranhas das Minas da Borralha. Em funcionamento entre 1902 e 1986, este chegou a ser o maior couto mineiro de volfrâmio do país, com 1788 hectares.

Entre os marcos históricos, consta ter sido criado, em 1952, o único sistema de transformação de volframite em ferro-tungsténio do país propriedade de uma empresa mineira.

Cerca de duas mil pessoas chegaram a depender diretamente da mina e cinco mil mil indiretamente. Os arquivos têm fichas de 52 mil funcionários diretos.

As minas trouxeram desenvolvimento enquanto funcionaram, mas o seu encerramento causou graves problemas sociais, que a autarquia teve de ajudar a resolver.

Em julho de 2015 abriu o Centro Interpretativo das Minas da Borralha, inserido no processo de requalificação do espaço mineiro, que ficou ao abandono com o encerramento da mina e chegou a ser alvo de pilhagens e atos de destruição.

A coordenadora do Centro Interpretativo, Sofia Dias, adianta que este espaço já recebeu a visita de 15 mil pessoas, sendo que quase todos os visitantes têm ligações à mina, numa espécie de viagem da saudade.

Esta responsável diz que o projeto de abertura de uma galeria da mina, dependente da aprovação de uma candidatura a fundos europeus, permitiria diversificar o público, tornando este núcleo ainda mais atrativo,

Sofia Dias refere que a população local continua a sonhar com a reabertura da mina, com o argumento de que minério não falta. Prospeções recentes parecem, aliás, indicar a existência de um novo filão, mas no atual contexto mineiro mundial dificilmente a extração nos moldes de outrora seria rentável.

«Era uma autêntica cidade»

Mendes recua na história para falar dos tempos áureos das Minas da Borralha. «Era uma autêntica cidade. O resto ainda estava tudo às escuras e aqui tudo iluminado. Havia cinema todas as semanas, correios, médico, padaria, escola, grupo desportivo, banda de música, bailes… Mesmo quando lá fora havia racionamento, aqui não faltava o pão. Era melhor aqui naquela altura do que hoje em alguns sítios», afirma.

Daqueles tempos, recordam-se os privilégios dos membros do grupo desportivo. Para que os resultados fossem bons, os atletas não trabalhavam sexta-feira à tarde e tinham direito a um litro de leite extra.

As histórias sobre a mina e as suas gentes são imensas, repetidas tantas vezes que algumas ficam num limbo entre a verdade e a lenda. E muitas prendem-se com a clandestinidade da “fárria”. Com a ânsia de melhorar de vida, os farristas iam desviar minério de dentro das minas, à noite, ou procurá-lo por sua conta, para depois ser vendido a contrabandistas, que o revendiam para fora da região.

Esta atividade teve períodos tão lucrativos que, diz-se, havia quem usasse notas de 500 para enrolar tabaco. Outra das “estórias” dá conta de um homem que chegou a uma livraria e decidiu comprar toda a prateleira de livros. Alertado para o facto de haver publicações repetidas, terá retorquido: «Não os vou ler, porque não sei. É para ficar bonito em casa».

«A barrosã é a melhor raça que há»

Desde os 5 ou 6 anos que Pedro Martins ajuda o pai, José Alves Martins, a tratar do gado. Atualmente com 13 anos e o sonho de ser veterinário, o jovem pastor não tem dúvidas em afirmar que «a raça barrosã é a melhor raça autóctone que há».

Com 32 vacas a pastar e 50 vitelos na corte, no Lugar de Paredes, em Salto, Montalegre, Pedro Martins não esconde que gosta da vida «natural» que esta atividade lhe proporciona.

Quando não tem aulas, o jovem levanta-se pelas 8h00 e a sua rotina começa com a distribuição de feno, milho ou centeio aos animais. Depois, estes vão para o pasto, onde permanecem até à noite, altura em que regressam à corte.

Instado a dizer se não gostaria de estar a brincar, Pedro Martins garante que prefere ajudar a tratar dos animais. «É a minha vida desde pequenino. Gosto disto», afirma.

Segundo a Associação Nacional de Criadores de Gado da Raça Barrosã, estão registadas 7286 vacas barrosãs, das quais 1764 no concelho de Montalegre, com destaque para a o localidade de Salto. Produzida com qualidade superior no Planalto Barrosão, esta carne já era exportada no século XIX para Inglaterra.



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