Espaço do Diário do Minho

Centenário da Batalha de La Lys 
(1.ª Guerra Mundial, 1914 / 1918)

9 Abr 2018

Hoje, completam-se 100 anos da mortífera Batalha de La Lys na Flandres, durante a 1.ª Guerra Mundial, onde a 2.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.) foi quase  dizimada pelo 6.º exército alemão sob o comando do general Von Quast, composto por 50 000 combatentes.

Tratou-se do maior desaire militar depois de Alcácer-Quibir.

Para se ter uma ideia da hecatombe, basta recordar que em toda a campanha as duas Divisões que compunham o C.E.P. foram constituídas por cerca de 55 000 homens, sendo que nesta batalha participou a  2.ª Divisão com 20 000 elementos, já que a 1.ª tinha sido colocada na retaguarda.

A zona  confiada ao C.E.P. abrangia 11,5 Km e compreendia os sectores de Fauquissart, Neuve Chapelle e Ferme du Bois. As 40.ª e 55.ª Divisões Britânicas, que ladeavam a 2.ª Divisão recuaram, deixando expostos os nossos flancos. O exército inimigo, fruto de informações de que as nossas forças iriam ser rendidas e do denso nevoeiro que o beneficiava, iniciou o ataque pelas 04h15, com barreiras de fogo de artilharia avassaladoras e que, mau grado todo o nosso empenho, não conseguimos suster. A morte e a debandada foram gerais. As últimas defesas foram ultrapassadas e, por volta do meio dia de 10 de Abril, terminou toda a resistência. Pereceram nesta Batalha 614 combatentes, praticamente metade de todos os que morreram durante a participação de Portugal na campanha da Flandres. Os feridos e prisioneiros foram cerca de 5 200 e 6 600, respectivamente.

Entre as várias Brigadas da 2.ª Divisão, que muito se distinguiram pela sua heroicidade, é de enaltecer a 4.ª de Infantaria, mais conhecida por “Brigada do Minho”, uma das mais fustigadas e a quem estava entregue o sector de Fauquissart. Aguentou estoicamente os primeiros embates, até ser aniquilada pela violência do ataque. Era constituída pelos Batalhões de Infantaria 3 (Viana do Castelo), 20 (Guimarães) e 8 e 29 (Braga). Todos foram inexcedíveis em coragem e abnegação, só se tendo rendido após sofrerem inúmeras baixas.

Desse fatídico dia é justo recordar, entre tantos heróis da “Brigada do Minho“, o seu Comandante, Tenente-Coronel Eugénio Carlos Mardel Ferreira, ferido e feito prisioneiro, que foi alvo de saudação do Comandante da Divisão atacante “blessé et prisonnier avec beaucoup d’honneur“. De enaltecer o Comandante de Infantaria 29, Major José Xavier Barbosa da Costa, que com seu exemplo a todos encorajou. Ferido gravemente, só se salvou por ter sido retirado do meio de corpos que não davam sinais de vida por uma praça de Infantaria 3, que o reconheceu. A cidade de Viana do Castelo homenageou-o atribuindo-lhe o nome de uma rua. Também o Tenente de Cavalaria Alfredo Guimarães (promovido a Capitão e agraciado com a Torre e Espada a título póstumo) que, com valentia, resistiu na frente de combate e estabeleceu ligação com o comando do Batalhão, tendo aí sido morto. O seu nome foi associado a uma rua da cidade de Guimarães. Por seu turno, o 2.º Sargento de Infantaria 8 Manuel de Sousa Guedes que, embora ferido, subiu ao telhado do posto de comando (Red House) continuando a metralhar os alemães até cair prisioneiro, vindo a falecer na Alemanha. Na defesa do posto de comando, o Capitão Alberto da Silva Matos, 2.º Comandante de Infantaria 29 (meu avô) e que com o seu exemplo e coragem a todos animava, foi atingido mortalmente,  juntamente com o valente companheiro de armas Alferes Sapador Alexandre Jesus Cabeças. Foi promovido a título póstumo a Major e agraciado com a Torre e Espada, entregue em cerimónia pública a meu pai pelo Marechal Joffre. O Município de Braga homenageou-o dando o seu nome a uma rua da cidade, em Maximinos.

O Batalhão de Infantaria 29, que já tinha dado provas num “raid” alemão de 23/24 de agosto de 1917 no sector de Fleurbaix e mais tarde, em 22 de novembro, em Ferme du Bois, ambos repelidos, relativamente aos seus efetivos foi o que sofreu mais baixas.

Avelino Lima

 

No meu entender, as causas que contribuíram para a desmoralização dos nossos combatentes foram várias, das quais destaco: (I) os problemas decorrente da mudança de regime, com sucessão de governos, greves e atentados, contribuindo para a debilidade económica, pobreza e falta de géneros; (II) a defesa das colónias, principalmente o sul de Angola e o norte de Moçambique, cobiçadas pela Alemanha; (III) A revolução de dezembro de 1917, considerando que Sidónio Pais era adverso à participação de Portugal no conflito; (IV) Vazio de comando nos batalhões do C.E.P., decorrente do não regresso à Frente de vários oficiais, por razões políticas ou de estrutura funcional, após períodos de licença em Portugal. (V) falta de efectivos, reduzidos a 50% da mobilização (VI) A falta de preparação militar dos mancebos, recrutados à pressa nos campos rurais do País; (VII) Deficiente organização, equipamento e armamento, por contraponto com as forças inimigas (VIII) A não rendição das tropas completamente esgotadas e stressadas.

Foi penoso o regresso das nossas martirizadas Forças, tendo quiçá sido mal compreendida a sua atuação num cenário tão adverso. Na realidade, a actuação da 2.ª Divisão foi alvo dos maiores elogios, como o comprovam as declarações dos beligerantes, quer as do Tenente-General Hacking do XI.º Corpo Britânico, quer do alto comando alemão do Marechal Von Hindenburg.

A 2.ª Divisão cumpriu o seu dever desde os comandantes até ao simples soldado. Honra e glória a todos os que lutaram por uma causa que, por certo, não era a deles, e sem deixar de colocar uma questão de difícil resposta: será que se justificou a intervenção do C.E.P. na 1.ª Guerra Mundial?



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