Espaço do Diário do Minho

O país que ainda somos
5 Abr 2018
Rosas de Assis

Li algures que os pensamentos devem entrar na nossa alma como a luz nos nossos olhos, com prazer e sem esforço; e as metáforas devem ser como o vidro, que cobre os objectos, sem os deixarmos de ver.

Habituados a ver as coisas por meios de comunicação virtuais, somos, por vezes, levados a pensar no que vemos sem ver o que pensamos, mormente quando se escondem verdades, em que não devemos pensar, porque estas nos esmagam e podem tirar o sonho quimérico ou utópico, para sentirmos a crueldade do opaco e do real. A nossa dignidade consiste no pensamento, como disse Pascal, e este deve ser diáfano, meridiano e transparente.

Tenho lido muitas coisas, medito em silêncio, por vezes, calo ou interrompo a minha meditação para abstrair do que me preocupa, pois me deixa sem resposta, embora o sinta há muito tempo de forma dolorosa e cruel. Através do nosso modo de pensar, ver, sentir e de agir é que nos elevamos, nos rebaixamos ou rebaixamos os outros.

Quem lê ou vê certa comunicação social, fica espantado com o desaforo, falta de respeito pelos leitores, ou ouvintes, pelo modo como se tratam, fazendo deles crianças ou infantilizando, em artimanhas como certos líderes de partidos em linhas, fogos e jogos cruzados iludindo os seus clientes. É toda uma panóplia pandémica de ideias e objectivos marcados por irrealismo, toupeiras tratando-nos de imbecis. Será esta a melhor estratégia para convencer os menos advertidos, incautos, mesmo edulcorando as grandes tragédias que nos têm atingido, com fogos, secas e cheias, destruindo recursos e as poucas luzes ao fundo de túnel no meio do lodaçal e êxitos que alcançámos?

Tudo se torna muito grave quando parte de responsáveis, que, atentos aos desafios constantes, deveriam precaver futuras tragédias, que, em tempos de mais contenção nos fariam mais fortes na economia para enfrentar novas crises. Podemos dizer que estivemos sempre em crise.

Quando os ventos se tornam mais favoráveis, logo aparecem abutres ou novas aves de rapina a tentar comer a flor, que nunca poderá frutificar. Não são as crises tempos de oportunidade, de crescimento, desde que bem controladas numa economia de formiga sem os cantos da cigarra? Mas isto não dá dividendos políticos, nem permite angariar eleitores. Por isso interessa desviar as atenções, ou adiar sucessivamente os problemas sem soluções adequadas, e fica-se nos cantos de sereia e cores de rosa… Os portugueses esforçam-se a trabalhar e de cada vez mais pobres.

Há dias o Presidente da República, Marcelo foi contundente: “Tenho vergonha de existirem tantas desigualdades e termos ainda tanta pobreza no País”. Uma seta ou lança no coração dos responsáveis e um repto a toda a nossa nomenklatura política, que não pode ficar indiferente, num tempo em que a nossa economia melhorou e se esvai: fraudes impunes, bancos a injectar-se ainda, onde se esbanjaram acima de 17 mil milhões de euros, mais de 60% vendidos a estrangeiros; vendeu-se a EDP, e novas injeções, e o défice astronómico é contabilizado a rigor; pagamos os mais altos impostos; alienam-se-se ou hipotecam-se propriedades a estrangeiros; preparam-se jovens nas 23 universidades, e verifica-se que muitos estão dispostos a emigrar… etc., enquanto uma imobiliária especulativa sobe rendas e preços de imóveis nos centros, e outros ficam delapidados em aldeias desertificadas, a desmoronar, sem capacidade nem interesse de se reabilitar ou vender.

A par disto, existe uma emigração, sobretudo na Europa a atravessar tremendas dificuldades, ou de corda ao pescoço, para pagar encargos de bancos relativos a compra de imóveis abandonados, alguns também vitimas de roubos e incêndios. Isto deveria fazer-nos pensar e incomodar os políticos e a todos. Mas esta é a outra face da pobreza, consequência de cornucópia e de tanta irresponsabilidade.



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