Espaço do Diário do Minho

Que Igreja?

29 Mar 2018
Silva Araújo

1. Nesta Quinta-feira Santa penso ser oportuna uma reflexão sobre a Igreja que somos e a Igreja que devemos ser.

2. Ao vocábulo igreja podem ser atribuídos diversos significados. É igreja a assembleia reunida, é igreja a comunidade dos que creem em Jesus, é igreja o edifício onde essa comunidade regularmente se reúne.

Muitas pessoas restringem o significado do vocábulo ao edifício material, quando é muito mais importante a igreja-comunidade, a igreja-povo de Deus. Sem esta, a igreja-edifício fica às moscas.

3. Continua a existir uma visão profundamente clerical da Igreja. Para muitas pessoas a Igreja é o Papa, são os bispos e os padres. Mas a verdade é que todos os batizados pertencemos ao corpo de Cristo, que é a Igreja, onde há diversidade de funções, mas unidade de missão (I Coríntios 12, 1-30; Vaticano II, «Apostolado dos Leigos», n.º 2).

4. O facto de termos uma Igreja excessivamente clericalizada pode ter levado ao infantilismo e à passividade de muitos leigos.

Os padres têm, na igreja, uma missão específica. Missão que devem – ou melhor: devemos; também sou padre – cumprir com o máximo de disponibilidade e perfeição.

O sacerdote, porém, não deve ser, na igreja, o faz-tudo. É inadmissível que o sacerdote não tenha tempo para ouvir de confissão quem o pretende porque anda ocupado no desempenho de tarefas que podem e devem ser feitas por leigos, tão bem ou até melhor.

5. Há que refletir muito seriamente sobre a missão dos leigos na Igreja. Ajudá-los a tomarem consciência de que são igreja. Isto não apenas agora, pelo facto de ser crescente a escassez de sacerdotes, mas porque o leigo tem na Igreja um lugar próprio. Faz parte do seu estatuto.

O leigo tem uma missão a desempenhar na Igreja e no mundo. Não deve deixar de a exercer nem deve ser impedido disso.

Compete-lhe ser uma presença da Igreja no mundo. Deve assumir como encargo próprio a edificação da ordem temporal e agir nela de modo concreto e definido (Idem, n.º 7).

«Acostumem-se os leigos, diz o número 10, a trabalhar na paróquia inteiramente unidos aos seus sacerdotes, a trazer para a comunidade eclesial os próprios problemas e os do mundo e as questões que dizem respeito à salvação dos homens, para que se examinem e resolvam no confronto de vários pareceres».

O n.º 37 da constituição dogmática sobre a Igreja (Lumen Gentium) afirma que os pastores «devem reconhecer e fomentar a dignidade e responsabilidade dos leigos na Igreja».

E acrescenta: «recorram espontaneamente ao seu conselho prudente, entreguem-lhes confiadamente cargos em serviço da Igreja e deem-lhes margem e liberdade de ação, animando-os até a tomarem a iniciativa de empreendimentos».

É indigno e errado considerar o leigo um cristão de segunda, uma espécie de criado do padre. Padres e leigos são Igreja e ambos, de mãos dadas, cumprindo a missão que lhes compete, devem contribuir para a construção do Reino de Deus.

6. Sem pretender ofender ninguém, mas com o realismo que a verdade impõe e reconhecendo o muito que se faz, há perguntas que, em minha opinião, não devemos deixar de nos fazer:

As preocupações reveladas há tempos por D. Francisco Senra Coelho no balanço de visitas pastorais não nos inquietam?

A preocupação com o espetáculo não terá contribuído para que descuremos a formação das pessoas?

Temos muitos adultos cristãos. E teremos muitos cristãos adultos?

Os conhecimentos religiosos de muitas pessoas não se limitam ao que não esqueceram da catequese para a primeira comunhão?

Arranjamos substitutos válidos para devoções que se deixaram de praticar?

Os fiéis leigos estão, na generalidade, preparados e motivados para assumirem na Igreja as responsabilidades que lhes competem?

Que Igreja devemos viver e construir: a dos discípulos de Jesus ou a do papa, dos bispos e dos padres? A igreja, povo empenhado na construção do Reino de Deus, ou a igreja-espetáculo, que promove atividades de encher o olho mas não nos sacodem por dentro e nos distraem do fundamental que é ser cristão?



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