Espaço do Diário do Minho

Lealdade, precisa-se!
5 Mar 2018
António Sílvio Couto

Lealdade’ significa a qualidade de alguém que é leal. ‘Leal’ tem origem no termo latino ‘legalis’, estando, por isso, relacionado com o conceito de lei.

Assim leal seria alguém em quem era possível confiar e que cumpria as suas obrigações legais, não faltando aos seus compromissos, demonstrando responsabilidade, honestidade, retidão, honra e decência… Podem ainda tomar-se como sinónimos de lealdade termos como fidelidade, dedicação e sinceridade.

Ora, diante de certos acontecimentos e situações; perante várias circunstâncias e casos; tendo em conta inúmeros comportamentos e atitudes… poderemos questionar se a lealdade será virtude/qualidade que norteie tanta gente, desde os aspetos mais simples e privados até aos mais complexos e públicos…

Talvez hoje se viva mais num clima de desconfiança, onde os outros se tornam, com relativa facilidade, mais adversários – e, nalguns casos, até inimigos – do que parceiros duma caminhada, onde todos teremos a aprender uns com os outros, desde as facetas mais normais e quase impercetíveis até às mais complexas e necessitadas de desmontagem para serem, suficientemente, compreendidas.

= Comportar-se de forma leal será, em grande medida, integrar-se num projeto comum, onde cada qual não reivindica para si os resultados, mas antes quer fazer parte duma ação mais ampla e significativa. Dado que vivemos num tempo onde a ponderação nem sempre é a forma mais comum e o bom senso dá a impressão de estar em maré contínua de saldos, torna-se importante detetar por onde anda a lealdade, fazendo dela uma atitude de vida e, sobretudo, um modo de estar no relacionamento com os outros.

* Ser leal é dizer o que se pensa e pensar o que se diz. De facto, muita gente reclama que diz o que pensa, mas nem sempre pensa o que diz. Quantas vezes é preciso dizer pouco, sabendo muito mais do que aquilo que é referido…

* Ser leal é saber calar, quando se não tem a certeza daquilo sobre o qual se é chamado a pronunciar-se. Quantas vezes o silêncio é a forma mais sábia de falar, mesmo que possa parecer um tanto atribulado pelo constrangimento em dizer só o que se sabe e nada mais…

* Ser leal é saber tomar posição, mesmo discordando, sem com isso ofender o oponente nem tão pouco faltar à verdade. Quantas vezes se pretende impor uma posição menos bem amadurecida e com isso pode-se arriscar a ser menos ponderado e sensato…

* Ser leal é ter por grande desejo a valorização dos outros, sem que com isso se viva na adulação nem tão pouco em fazer-se passar por ‘amigo’, quando se anda a levar-e-a-trazer. Quantas vezes deveríamos conjugar o verbo escutar nas suas formas mais variadas, nos tempos mais diversos e nas proposições mais reflexivas…Como pode alguém ser digno de crédito se passa o tempo a maldizer e a difundir maledicência?

= A palavra ‘leal’ aparece no brasão de armas de, pelo menos, três cidades em Portugal: Porto, Évora e Lisboa… como que a realçar o vínculo de tais cidades e outras, como Macau, onde o espírito português se foi desenvolvendo sob o signo da lealdade, tanto das gentes como do vínculo histórico a momentos significativos do seu passado… Será que a lealdade continua a ser critério pelo qual se pautam os governantes dessas cidades apelidadas de ‘mui nobre e sempre leal’?

Poderemos contar com a exaltação dos valores da lealdade, quando isso implica liberdade e respeito pelos outros? Até que ponto não será de cultivar estes valores da lealdade, da responsabilidade e da honestidade…sem ser em conotação ideológica, mas como valores éticos, muito para além dos meramente republicanos e laicos?

Por vezes (mais do que seria desejável) são chamados a intervir em iniciativas da Igreja católica – das dioceses, das paróquias, dos movimentos ou da universidade – figuras (ministros, deputados, políticos, autarcas, pensadores e comunicadores) que não teriam, em sentido inverso, idêntica aceitação se fossem os convidados da área eclesial… Abertura sim, mas confusão, não. Será isto, lealdade de métodos e de condutas?

Ora, a lealdade é e deve ser algo que nos faça encontrar na luta, mas também na fraternidade; algo que exige de nós compromisso em criar uma corrente de sabedoria, descobrindo tanto daquilo que nos humaniza e abjurando muito daquilo que nos bestializa… a começar em nós mesmos!



Mais de António Sílvio Couto

António Sílvio Couto - 21 Jan 2019

Foi notícia por estes dias: um homem paraplégico morreu carbonizado na sua própria casa. O facto é de per si trágico e confrangedor. Por entre os destroços daquilo que foi uma habitação sobressai – dizem as reportagens – um cão que não abandona o local, farejando e esperando o regresso do dono falecido. Houve quem […]

António Sílvio Couto - 14 Jan 2019

Vindo do outro lado do Atlântico chegou à nossa sociedade a discussão do ‘azul e rosa’, isto é, a insistência em conotar com estas cores o sexo das pessoas: azul para rapaz e rosa para rapariga. Numa declaração mais fundamentalista – no correto e essencial significado do termo – das cores do sexo masculino e […]

António Sílvio Couto - 7 Jan 2019

Sob a confluência de diversas tendências vemos que, hoje, se manifestam múltiplas formas de religiosidade individualista, onde cada um se serve do que lhe interessa, desde que se sinta (mais ou menos) bem… e que possa tomar das diferentes expressões religiosas – desde as mais tradicionais até às menos institucionais – o que lhe dá […]


Scroll Up