Espaço do Diário do Minho

Do pântano não se sai a nado…
19 Fev 2018
António Sílvio Couto

A confusão é muita. As razões podem ser diversas. As propostas não são tão audazes quanto seria desejável. O povo dá-se por contente porque tem dinheiro para gastar agora e pouco aferrolha em vista do futuro. Quem dirige vende mais ilusões do que certezas.

Quem ousar a utilização de palavras como ‘sacrifício’, ‘contenção’, ‘sobriedade’, ‘vigilância’… correrá o risco de ser apelidado de todos os nomes que nem os muçulmanos chamariam ao toucinho…

Ora, ao vermos um certo empolamento do nosso sucesso ‘coletivo’, fica-nos a sensação de que alguém mente ou, então, encobre, subtilmente, algo que surgirá a médio prazo… com consequências já vistas.

* Dizem que o desemprego caiu, mas esquecem-se de dizer quantos emigraram, entretanto… Em tempos relativamente recentes estes dois fatores eram tido em conta, como se fossem dois pratos da mesma balança, pois, quando um subia, o outro descia e vice-versa… agora parece que fazem parte de contextos diferentes para analisarem a mesma questão… 22% da população portuguesa vive no estrangeiro, isto é, 2,3 milhões… são dados revelados no final do ano de 2017.

* Outro aspeto a ter em conta para avaliação das discrepâncias entre os números que nos apresentam e a realidade, tem a ver com o diagnóstico da população, atendendo aos nascimentos, à segurança (social e de movimentação), ao envelhecimento e à (dita) qualidade de vida… sem perdermos de vista o grande tema da família, que une e que configura estas questões enunciadas.

Com efeito, há cada vez menos crianças. Segundo dados oficiais, em 2017, nasceram menos sete crianças por dia no nosso país… num total que não atingiu noventa mil/ano.

Por seu turno, o envelhecimento é cada vez mais acentuado: em 2016 havia, em Portugal, 600 mil pessoas com idade superior a oitenta anos, numa percentagem de quase 6% da população total… A já chamada ‘4.ª idade’ está a crescer mais do que seria previsível, mesmo no contexto europeu, onde os países do sul estão cada vez mais envelhecidos e pouco rejuvenescidos com crianças…

* Quando tanto se ouviu falar dum ‘orçamento favorável para as famílias’, o que vemos são iniciativas avulsas onde, antes de mais, se tem de definir a que família se referem e quem pode ser abrangido por tais medidas sem fazer perigar o seu conceito social e ético de família.

Dá a impressão que ‘família’ pode ser tudo e o resto daquilo que se quiser fazer constar e não bastará criar mais escalões de IRS em que não se pague mais. Ser pela família tem tanto de confuso, quanto de oportunista, sobretudo para certas fações anti-família com raiz judaico-cristã.

= Perante estas questões de âmbito social, como poderemos viver o tempo da Quaresma, de preparação para a Páscoa? Onde e de que modo estas questões não ajudarão a sair do pântano social e cultural em que vivemos? Que linhas poderemos escolher de caminhada?

Vejamos um excerto da mensagem do Papa Francisco para a quaresma deste ano: «uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. (…) Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos»!

Para sairmos do pântano da nossa rotina teremos, antes de mais, de detetar o caminho por onde ir, para que não andemos a esbracejar e nos afundemos ainda mais. Precisamos de usar os meios mais adequados para que não nos fique apegado ao corpo o lodo do pântano, com as consequências de prolongarmos, infetando outros, os vícios e uma certa moral de escravizados.

Na vivência da via-sacra, como devoção de quaresma, quisemos, este ano propor um esquema onde os vários graus de parentesco rezam e são rezados, em cada uma das ‘estações’ ou etapas da via-sacra. Sugerimos, tendo em conta as catorze ‘estações’, o seguinte itinerário: pai, mãe, marido, esposa, avós, netos, irmãos, sogros, genro/nora, cunhados, primos, tios/padrinhos, sobrinhos, enteados (padrasto/madrasta).

A família precisa de sair desse pântano para onde a empurraram. Assim a quaresma possa ser ajuda na saída!

 



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