Espaço do Diário do Minho

A “coxear” no regime
15 Jan 2018
Narciso Mendes

Apesar de termos um Parlamento, disposto em forma de “ferradura”, com assentos parlamentares à esquerda e à direita, onde se instalam os deputados dos diversos partidos, é para o centro que esquerda e direita convergem a entender-se. Fruto de uma constituição que bebeu, legislativamente, no processo revolucionário, militar, de 25 de Abril de 1974, em que o Partido Socialista se transformaria no garante do caminho para uma sociedade socialista.

Daí, que toda a política, à posteriori, endeusasse a esquerda como aquela que promete dar o socialismo aos portugueses, a quem lhes passaram a pedir – em troca – impostos e votos para elegerem a atual maioria parlamentar – num regime democrático à espera de melhores dias, quanto ao poder do povo português. Num Hemiciclo onde existe, uma ala à direita que não se assume como tal, ao invés da esquerda marxista, leninista e trotskista – agora agarrada ao PS – que se preza de o ser.

Tempos houve em que, quase sempre, soprou uma aragem que empurrava o PS a aliar-se ao PSD ou ao CDS/PP, resultando uma maioria parlamentar ao centro, ficando apenas os partidos à esquerda do PS. Só que, agora, o vento mudou. O seu falecido fundador, experiente, nunca embarcou em tal aventura, receoso de uma tempestade comunista, como o fez este primeiro-ministro socialista. Coisa que não amedrontou este seu correligionário, associando-se a eles. Ainda que esta aliança não corresponda à vontade, expressa nas urnas, por não ter sido anunciada. Mesmo assim tolerada, a meu ver, pela reversão dos cortes do anterior Governo, embora favorecido pelo crescimento económico em toda a comunidade europeia.

Não posso estar mais de acordo com um reputado economista quando escreveu, recentemente, no DN, que “há em Portugal um regime enviesado e uma direita descuidada”. A que eu acrescentaria, ressabiada.

Basta vermos o incómodo que sentem alguns deputados, dos partidos que compõem a oposição ao Governo, quando ouvem: – aqueles senhores da direita fizeram isto… e aquilo…!

Isto, porque segundo os cânones d’abril, ser de direita ainda é sinónimo de reacionário e fascista. Ou seja, sofre de todos os epítetos usados contra a ditadura. Uma espécie de herança fechada – a sete chaves – nas mentes de todos quantos se sentem donos da verdade, por terem recebido novo “fardamento” ideológico de tipo estalinista ou ao estilo de Kim Jong-un, líder eterno. Porque, segundo ensinaram às massas populares “só de punho erguido um país fará sentido”.

Ainda agora nesta campanha de eleições, para a presidência do PSD, um dos candidatos prometeu puxar o partido para o lugar dele – que é o centro. E até o próprio CDS, que é por definição “centrista”, raramente admite ter um pensamento de direita. Será por ter tido alguém a revogar o irrevogável, que provocou este “coxear” no regime e debate democrático?

É que se já com tanto centrismo as alcunhas surgem depreciativas, se um partido se assumisse como “direita portuguesa democrática”, com este estado de alma – vindo da revolução – logo seria apelidado de “hitleriano”. Como se direita e esquerda vivessem numa redoma, da qual não saem, nem evoluem. Pois, afinal, ainda que todos tenham telhados de vidro, é pela dialética entre os dois pensamentos que poderemos vir a ter, um dia, uma democracia de sucesso, com justiça a sério e defensora dos direitos humanos.

Dizia, há dias, um ex-dirigente do CDS/PP, em entrevista ao JN: “a direita portuguesa está em crise profunda. E não ganhará eleições se ambos os partidos não mudarem o discurso. Mas qual direita? Aquele que sem um programa político aglutinador, voltado para no futuro, pensa ser capaz de derrubar esta “muralha de tachos”, criada pelo PS? Ou a cujas propostas, não sabendo a carne nem a peixe, resultem num “saboroso” compromisso de esbater este fosso entre ricos e pobres?



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