Espaço do Diário do Minho

Prendas de Natal
7 Dez 2017
Silva Araújo

1. Instituiu-se o rito da troca de prendas por ocasião do Natal. É uma forma de mostrarmos às pessoas que as não esquecemos e de lhes darmos um sinal da nossa amizade.

Tenho procurado manter-me fiel a esse costume. Há um conjunto de pessoas a quem não tenho faltado com a minha prendinha.

Um problema que se me coloca, e penso que a muitas outras pessoas, consiste em saber que prenda oferecer.

Às vezes, embarcando na publicidade e cedendo à ditadura da sociedade de consumo, gasta-se dinheiro em coisas de pouca ou nenhuma utilidade. Oferecem-se bugigangas que ocupam espaço, podem encher o olho, mas que para pouco ou nada servem.

Para o Natal que se aproxima, a minha decisão foi tomada há várias semanas e as compras estão feitas. Salvo raras exceções, cada uma das pessoas que costumo presentear receberá um exemplar de «Evangelho diário 2018» e «O Dia Santificado».

 

2. Pode acontecer de, com as prendas de Natal, suceder algo de semelhante ao que muitas vezes se passa na nossa vida cristã: oferecemos coisas a Deus mas não nos damos nós mesmos. Acendemos velinhas, para que se derretam, mas não nos derretemos nós, procurando fazer em tudo a vontade de Deus.

É muito possível que, ao receber a prenda, a pessoa diga de si para consigo: está bem. Gostei que se tivesse lembrado de mim. Mas se, em lugar de me dar isto, conseguisse arranjar um bocadinho de tempo para me fazer companhia… se me convidasse para irmos juntos dar um passeio numa tarde de domingo… se manifestasse disponibilidade para ouvir o muito que tenho para lhe contar e escutasse, pacientemente, os meus desabafos…

É mais fácil darmos coisas – escrevo a pensar em mim – do que darmo-nos, e pode acontecer de as pessoas estarem à espera da oferta de nós mesmos: do nosso tempo, da nossa disponibilidade, do nosso sorriso, do nosso gesto de carinho, da nossa palavra de encorajamento…

Celebrar o Natal também é sermos prenda para os outros, vencendo o comodismo egoísta.

 

3. A celebração do Natal é mais uma oportunidade para refletirmos sobre a grande prenda que Deus nos deu: fez-se um de nós, mostrando, com atos, o muito que nos ama.

O Menino Jesus que recordamos no Natal é a grande prenda de Deus à Humanidade. De Deus que é amor e nada mais quer senão que O amemos e nos amemos. Que nos amemos fazendo quanto de nós depende para que os outros se sintam felizes.

 

4. Celebrar o Natal é ver Jesus no rosto de tantas crianças que esperam um gesto de carinho e um sinal de amizade.

É ver Jesus nas vítimas da violência doméstica e de maus tratos de toda a ordem, aguardando ansiosamente a prenda de quem vá em seu auxílio e alerte os responsáveis para a dramática situação em que vivem.

É ver Jesus na pessoa dos idosos que se arrumaram num lar de terceira idade.

Celebrar o Natal é ver Jesus na pessoas de tantos que sofrem as consequências dos incêndios e precisam de quem os ajude a refazerem a vida.

Celebrar o Natal é ver Jesus na pessoa dos mais fragilizados e ter para com eles um gesto de conforto.

Celebrar o Natal é dar uma palavra de encorajamento a quantos perderam a esperança e a alegria de viver.

Celebrar o Natal é tomarmos consciência de que todos os dias, e não apenas uma vez no ano, Jesus vem ao nosso encontro na pessoa dos mais débeis à procura de um lugar decente para se acolherem, de uma ajuda para pagarem medicamentos, de um trabalho digno e dignamente remunerado, de quem lhes faça justiça e os ajude a sacudirem a opressão de gente sem escrúpulos.

Celebrar o Natal é ajudar as pessoas a libertarem-se das garras dos Herodes do nosso tempo, que sacrificam os outros às suas ambições pessoais.

Verem-se respeitadas na sua dignidade e nos seus direitos e tratadas como seres humanos e  filhos de Deus não será a prenda por que muitas pessoas anseiam?



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