Espaço do Diário do Minho

Deixem os gambozinos em paz
30 Out 2017
Paulo Fafe

Andam à procura das causas primárias e causas últimas sobre os incêndios na floresta. Os entendidos procuram justificá-las com a florestação, outros adiantam causas excecionais de tempo, há quem jure que tudo se deve à falta de meios para a vigilância ou ao não investimento na fixação de gentes no interior. Tudo isto é chuva miudinha que embora molhe não justifica a enxurrada. O que verdadeiramente está na origem disto tudo são os incendiários. Um país não arde de norte ao centro com a violência a que assistimos desde Pedrógão ao Minho. Há aqui mãos incendiárias que por interesses vários, sejam eles quais forem, queimam montes e casas numa proporção que foge ao acaso. Não, aqui há organização criminosa, aqui há “empresas” interessadas nos produtos queimados, aqui há interesses na reconstrução de casas ardidas, na venda de alfaias e máquinas industriais. É preciso investigar a quem interessa esta calamidade que tomou proporções de guerra. Há quem chame terrorismo e, na verdade, pelo terror que se desprende daqueles enormes braseiros que tudo queimam sem piedade, muito parece ser obra de quem sabe onde incendiar, de quem conhece os ventos, de quem não ignora os acessos difíceis ou inexistentes. E o fogo, parafraseando padre António Vieira a respeito da guerra, é “aquele monstro que se sustenta de fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais consome tanto menos se farta”. Vieira no seu estilo grandiloquente falava da guerra, mas estes incêndios que consomem fazendas, vidas e sangue, em tudo se lhe assemelham. Olhei de longe, da minha janela inquieta, o monstro devorando o monte da Falperra. Parecia ter olhos e entendimento, parecia jogar à cabra-cega quem com ele lutava, ia e vinha numa dança macabra; cheirando apenas o fumo a queimado, entrou-me na alma o pavor de quem se sente impotente. Consola-me não ter perdido nenhum bem ou familiar? Consola, mas também se misturam neste alívio egoísta as lágrimas por aqueles que perderam pinhais que era sustento de vida, empresas rurais que eram emprego de famílias, desaparecimento de culturas que custaram sangue suor e lágrimas, culturas de uma vida! Imagino o desespero último daqueles que  se trancaram em casa à espera da sirene dos bombeiros na ânsia de  salvar seus parcos bens e animais. Alguém me explica como tudo isto é apenas consequência de queimadas mal feitas, de pontas de cigarros atirados por negligência, cacos de fundos de garrafas que focam os raios solares, matas por roçar, manto seco de estio ardente, eucaliptos e pinheiros a mais? Pode tudo isto ser, mas o pinhal de Leiria ardeu quase todo e tinha apenas pinheiros. Os eucaliptos que arderam já lá estavam há anos. Não sei dizer se a mata tivesse outra florestação teria ardido menos. Talvez tivesse. Mas sei que se apanharem os incendiários e os castigarem na devida proporção do seu crime, até os eucaliptos arderão menos e os pinheiros serão menos tochas e os incêndios serão facilmente contáveis. Olhem para as leis que mandam para casa os incendiários apanhados em flagrante delito! Mata-se um homem e apanha-se 25 anos; matam-se cem e apanha-se pulseira eletrónica, quiçá pena suspensa!!! As leis não prestam ou não chegam para punições exemplares? Rasguem-se as velhas e façam-se umas novas leis. Para  que serve o parlamento?  Procurem todas as causas, diminuam todos os riscos, vigiem as florestas, mas nunca se esqueçam dos incendiários. As víboras sem dentes são inofensivas. Cacem-nos e deixem de andar atrás de gambozinos.



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