Espaço do Diário do Minho

Só não entende quem não quer
25 Set 2017
Paulo Fafe

Não adiantam mesas-redondas com especialistas a explicar tecnicamente índices económicos, o que é macro economia, investimento e investidores, flutuações financeiras, ratings e coisas similares. O que o povo entende bem é quanto tem e quanto pode gastar, para saber como pode governar a vida. Portugal saiu do “lixo”, segundo a agência S&P (Standards & Poor’s) mas faltam outras dizer o mesmo: Fitch, Moody’s, por exemplo. Isto deu debate político: Passos Coelho reclama parte dos louros e António Costa quere-os todos para si.

Ambos têm, a meu ver, um pedaço deste resultado: o primeiro porque construiu em cima dos escombros duma bancarrota, os alicerces deste sucesso; o segundo porque soube aproveitar esses alicerces para construir o patamar onde hoje nos sentamos. Passamos de imersos a emersos, saímos do pântano em que estávamos atolados; temos a cabeça de fora, respiramos um pouco melhor, embora o resto do corpo continue lá preso. O patamar a que subimos é importante; por vezes não é difícil chegar à crista da onda, difícil é mantermo-nos nela. Nunca esqueceremos que os cabouqueiros deste sucesso foram os portugueses porque suportaram com sentido nacional, como um desígnio, os sacrifícios que lhes foram impostos. Nem arruadas promoveram ou nelas participaram!

Este povo magnífico que somos nós, não incendiou automóveis, não partiu vitrinas, não atirou pedras aos agentes de segurança para manifestar o seu descontentamento. Tiveram a coragem de ser serenos e quão isso irritou os agitadores de massas! É na desgraça que se conhece o caráter. Os portugueses sabiam e sabem que os extremismos não levam a parte nenhuma. Quando o atual Governo diz que vai abater a enorme dívida que temos, nós encontramos a razão dos sacrifícios e assumimos a realidade; é também a honra de todo um povo que se afirma. Esta honradez abre as portas ao financiamento a baixo custo, chama e incentiva investidores, coloca a nossa dívida mais apetecível.

A economia real, aquela que chega a cada um de nós, é o que mais importa, mas não a qualquer egoísmo. A melhoria de vida não passa apenas pela satisfação, nunca satisfeita, das necessidades pessoais. Passa também pelo equilíbrio orçamental porque sem equilíbrio orçamental o que hoje é satisfaz, amanhã não chega. E também, pelos compromissos internacionais. Enquanto pagamos dívidas, o dinheiro que temos não é todo nosso.

Como me diziam meus avós: «foge de dever que o pagar é certo». O “não pagamos” cheira-me a caloteirismo e ninguém quer isto, a não ser aqueles que pedem emprestado com o prévio propósito de nunca pagar. São sofistas hodiernos. Esta subida de ranking económico, agora declarado pela S&P, favorece a governação? Sim e não. Sim para quem liga a estas coisas e não para a grande maioria das pessoas para quem estas coisas da economia são como música para surdos.

Não penso que este êxito tenha a expressão política que o PS desejaria e o PSD/CDS tanto receiam, porque ainda não constitui um ciclo económico, é apenas um episódio circunstancial. Esta saída do “lixo” não vai influenciar as autárquicas; é aproveitada como trampolim para as legislativas de 2018. Por isso Passos Coelho se afadiga a desvalorizá-la e Costa a exaltá-la. Só não entende quem não quer.

 



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