Espaço do Diário do Minho

A canção do pão
11 Set 2017
Paulo Fafe

A política portuguesa estava embiocada nas questões orçamentais. Não pretendo discutir se a esquerda falava alto ou baixinho, o que sei dizer e afirmo é que a ideologia que estava prisioneira e enredada nas questões orçamentais voltou à ribalta, voltou a ter lugar no debate político. O debate ideológico centra-se em saber se o rendimento do pão é mais para quem o faz ou para quem dá a farinha.

A tentativa de encontrar um ponto de equilíbrio entre quem faz o pão e quem dá a farinha é o cerne de toda a questão ideológica; ao homem da farinha reconhece-se-lhe o direito ao lucro do investimento e ao homem que faz o pão o direito ao salário justo, direitos e garantias laborais do trabalhador. Parece que, depois das partes assumiram o acordo, deveria haver paz e concórdia no mundo do trabalho. Mas não acontece assim porque há os intermediários, isto é os sindicatos; alguns nunca concordam com os acordos porque perderiam espaço para reivindicar.

Poço sem água não enche caneco. Então os sindicatos são uma coisa ruim, são focos perturbadores entre quem dá a farinha e quem faz o pão? Presentemente os sindicatos precisam de repensar as suas posições de acordo com as mudanças do mundo laboral. O proletário passou a técnico e este está a passar a tecnológico, abrindo, nestas transformações, novos modos de ver e de viver que determinam e excedem o mundo social antigo: “cale-se o que a antiga musa canta” que outro mundo social se “alevanta”.

Pelo que percebo, a ideia de esquerda ou de direita não é senão a maneira de distribuição do rendimento do pão? É o que eu penso. Esta é a minha canção do pão. Cantada pela direita, o pão que me entra na boca tem o salário de quem trabalha, o lucro de quem investe e a taxa do Estado. Como o pão que escolho. É uma partitura a três andamentos. Se a farinha pertence ao Estado, quando entra na minha boca é igualmente uma partitura a três andamentos: custo da farinha, salário do operário e mais-valia para o Estado. Não escolho o pão que como.

Não sei se Cavaco Silva quis ou não ressuscitar estas questões; mesmo sem o pretender assim o fez. Tem todo o direito de o fazer ainda que devesse dar às suas ideias um elevado nível vocabular. Quanto a mim, a sua intervenção na universidade de verão do PSD/2017 trouxe novamente à cena política portuguesa o debate ideológico que se fosse flor há muito que tinha estiolada. Sem ideologia tudo é da cor do dogma. Com Cavaco Silva, relembramo-nos dos tempos em que o poder político valia mais que o poder económico. Com Cavaco Silva as chamas saíram das cinzas.

 



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