Espaço do Diário do Minho

Será o ensino privado uma excentricidade?
28 Ago 2017
P. Rui Rosas da Silva

De ambos os lados – público e privado – guarda gratas recordações, embora deva confessar que sempre lhe causou um profundo mal-estar a desconfiança, a sobranceria e o desacerto com que as instâncias do ministério do ramo tratavam o ensino privado.

Tanto, quanto me parece, há duas razões fundamentais: uma, a mais importante, o receio de que o ensino privado dê melhor conta de si do que o público. E a outra, que se une muito aos complexos gerados pela primeira, à suposta obrigação de que o ensino público deve ser o motor – quando não único – de toda e escolaridade do país. 

Estas duas razões são uma herança muito forte do regime do “Estado Novo”. O ensino privado era muito vigiado pelo salazarismo. Nunca lhe deu uma liberdade e uma capacidade de resolução dos problemas pedagógicos que lhe permitisse viver com plena autonomia do ensino público. Recordemos, por exemplo, que os graus académicos, desde a primária até ao final do ensino liceal, tinham de ser vistoriados e aprovados pelo ensino público. Os alunos das escolas privadas eram obrigados a fazer os exames das diversas etapas curriculares nas escolas ou liceus do Estado, que os aprovavam ou reprovavam.

Num sistema ditatorial, compreende-se que seja assim, porque tudo o que sai fora da alçada tentacular dos seus próceres, pode ser um perigo para a manutenção da ordem que eles consideram dever existir. E não se diga que a Igreja foi muito beneficiada com este sistema, porque não tinha ajuda económica séria para poder competir, pelo menos nos custos dos estudos dos alunos, com os estabelecimentos públicos – escolas primárias, liceus, escolas técnicas, etc. –, salvo naqueles casos em que numa localidade importante não se tivesse ainda instalado uma escola pública. Certamente que havia aulas de Religião e Moral de orientação católica, mas ai do professor que dissesse, sugerisse ou palmilhasse caminhos distintos daqueles que o Ministério da Educação determinasse…

Esta mentalidade proteccionista, paternalista, ao fim e ao cabo, monopolista das iniciativas, das ideias e dos métodos pedagógicos do ensino continua a ser muito comum na nossa mentalidade. O regime de Salazar acabou, mas deixou estas raízes que germinam e prosseguem na cabeça de muitos portugueses.

Considera-se o ensino público como aquele que deve predominar e abarcar como um polvo monumental toda a escolaridade do país. O privado pode manter-se como um acidente sem relevo e desnecessário, porque é o Estado que tem de ensinar e educar em todos os âmbitos e em todas as matérias. O Ministério da Educação fornece as ideias base do que devem aprender, a forma de pensar e até de comportar-se dos filhos das famílias portuguesas. E se os pais não concordam com elas? Metam os filhos no ensino privado e paguem essa estroinice de meninos ricos.

Ninguém duvida que ao Estado compete promover e garantir aos cidadãos uma educação adequada e digna. Mas que não o faça como os regimes totalitários – assim procederam os de teor marxista ou fascista – cerceando ou até retirando às famílias o direito de educar os filhos de acordo com os seus princípios fundamentais.



Mais de P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva - 15 Set 2018

No passado dia 20 de Agosto, o Papa Francisco, com a sua habitual frontalidade, escreveu uma carta ao povo de Deus, onde abordou uma temática dura, complexa e difícil de entender, porque o que está em causa é o péssimo comportamento de alguns membros do clero ou de pessoas com responsabilidade dentro da Igreja, de […]

P. Rui Rosas da Silva - 25 Ago 2018

Com alguma frequência, os meios de comunicação social confrontam-nos com o mau comportamento moral de sacerdotes católicos. Infelizmente, as razões do escândalo podem ser diversas, mas parece existir uma certa incidência pelos casos de abusos sexuais. Ao consultarmos os Dez Mandamentos, verificamos que o melhor e mais perfeito conhecedor da conduta humana, que é o […]

P. Rui Rosas da Silva - 19 Ago 2018

Recordo-me, na altura da última eleição para Presidente dos Estados Unidos da América – os antagonistas eram o actual morador da Casa Branca e a senhora Clinton –, a minha surpresa quando, ao consultar na Internet, o resultado dessas importantes jornadas eleitorais… Interrompamos a narração e olhemos para aquilo que a imprensa e a generalidade […]


Scroll Up