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Os usurários

Conta-se que um homem poucas horas antes de morrer chamou os seus dois advogados e pediu-lhes: “quando morrer e dentro do caixão quero levar comigo todo o meu dinheiro”. Um deles foi peremptório: “fique e vá tranquilo”. Descido à terra, o segundo advogado perguntou ao colega: “Resolveste o problema do dinheiro do cliente?” – “Sim resolvi. A pedido dos herdeiros passei-lhe um cheque e leva-o no bolso do casaco”. Creio sinceramente que estamos perante uma fábula ou até de uma anedota de salão. Todavia “diz” muito bem como se pode ter sido usurário ou desequilibrado.

Artur Soares
17 Jan 2014

Cristo no seu tempo falou deste género de pessoas quando afirmou: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu”. É sabido que Cristo nunca condenou a riqueza bem amanhada e muito menos os seus donos. Quis apontar os ricos selvagens, os usurários e todas as atitudes desta gente que não via (a seu lado) um irmão com fome.
Vivem os países da Europa em crise e Portugal vive sem empregos, com fome do Minho ao Algarve, em rigorosa austeridade que, lentamente, mata e tem-se destruído a paz entre famílias.
E a austeridade em que meia dúzia de políticos e de titulares de empresas nos têm oferecido sem que sejam rigorosamente responsáveis por este caos, é, nem mais nem menos uma punição contra os pobres e contra quem trabalha, pelos erros e pelo usurarismo dos ricos, dos senhores do mundo. Era desta gente que Cristo apontava à consciencialização dos discípulos e dos perigos que toda aquela atuação teria na eternidade de quem assim procedia. Cristo defendia os que sabiam aumentar riqueza, desde que fosse justa. Recorde-se a Parábola dos Talentos no evangelho, e tudo acerca do lucro justo é lá devidamente esclarecido.
Quem bem se recorda de como se vivia em Portugal antes desta abrilada de há quarenta anos, conclui facilmente que nos foram dadas todas as chances de sermos autónomos, modernos e com trabalho. O mal é que nunca tivemos sorte nem cérebros que levassem a vida do país a porto certo. Temos sido mal governados: sem ideias, sem inteligência, sem convicção e sem orgulho nacional.
O mal feito ao país está consumado. Todos os primeiros-ministros, inclusive o actual, foram e são estrangeiros cá dentro e outros fugiram para uma vida mais confortável. Os políticos existentes nos lugares determinantes da nação, muitos são medíocres e nem reciclados ou rechapados servem. Colocaram-nos com o nível de vida dos anos sessenta, onde empregos eram milagres e tantos assaltavam quem quer que fosse. Tudo servia: assaltos a bouças, campos e quintas, para se trazer lenha dos primeiros, hortaliças e fruta dos outros dois. Temos menos ordenados, mais impostos e taxas e ninguém sabe ou vislumbra se tal situação tem travões.
Tem-se dito nestes últimos dias ao país que tudo começa a melhorar para os portugueses e o (nosso) próprio presidente da Comissão Europeia afirmou a outra semana que “2014 vai ser melhor porque a crise do Euro foi ultrapassada”. Tal lengalenga faz lembrar a casa queimada: “descansem porque o fogo está extinto”. E os prejuízos quem os paga? E porque se continua em Portugal com mais austeridade e cortes salariais durante o ano que começa?
“A crise do Euro está ultrapassada”. E muito mais dirão este ano e no que vem.
Quando os salários forem mais baratos até à mínima miséria, quando tiverem colocado de
joelhos e com todos os medos, as profissões, quando tiverem lavado os cérebros à juventude, empurrando-a para a arte de trabalhar de graça, quando tiverem os milhares suficientes de pessoas desempregadas e dispostas a serem polivalentes ou voluntários, entre outras desgraças, dirão que a crise terminou.
Ouvir-se-á, creio bem, ainda este ano e o próximo, que o perigo passou sem sombra de qualquer dúvida; que os trinta anos que nos fizeram retroceder se irá normalizar em dois ou três; falarão de tal forma nas praças públicas e nas televisões, que qualquer um se vai sentir palerma, estúpido ou mal-agradecido. Conseguirão, devido à inércia do povo e com dois rebuçados conspurcados distribuídos a cada um… conseguirão, dizia, que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento com fado, foguetes e futebol, que deponhamos – jornalistas, poetas escritores e filósofos – atitudes críticas contra eles, prometendo que dia-a-dia a tranquilidade e uma risonha primavera nos cobrirá no futuro.
Finalmente afirmarão – e todos vamos crer – que para bem de Portugal foi essencial despedir os pais dos seus postos de trabalho, que foi importante negar emprego aos filhos e que foi patriótico e nobre ter-se destruído a vida económica dos reformados.
Todas estas verdades são dolorosas: são os “ecos do nosso mundo”!




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