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A causa do bem comum

A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos privilégios. Quando estes valores são afetados, é necessária uma voz profética» (Exortação Evangelii Gaudium). Nós não somos indiferentes à situação económico-financeira que se vive no país. Todos os dias somos confrontados com as notícias desse género que nos vêm da comunicação social. Por outro lado, somos obrigados a rever as nossas possibilidades para adquirir os bens necessários à vida humana e a carga de impostos que o Governo nos impõe.

Manuel Fonseca
16 Jan 2014

Afirmava há dias um político que a carga fiscal em Portugal é superior à de qualquer outro país da UE. Talvez nunca isto tenha acontecido no passado. E, no entanto, os governantes quase diariamente nos falam de crescimento e sucesso das políticas que nos são impostas.
Um dos sucessos dos últimos dias, na voz do Governo, foi o empréstimo conseguido nos mercados. Porém, a Espanha fez o mesmo de quase igual quantitativo e prazo, mas com uma enorme diferença: quando passar o prazo pagará de juros menos 365 milhões de euros que Portugal, segundo um economista.
Sabemos da situação difícil que os atuais responsáveis herdaram do passado. Mesmo assim, entendemos que a sua atuação podia ser diferente, mais prudente e justa, sobretudo a nível de privatizações. O Governo tem estado a alienar ativos que poderiam beneficiar enormemente o país no futuro. Recordamos, por exemplo, a alienação dos CTT. É uma empresa muito eficiente e pacífica, que tem prestado relevantes serviços à Nação e que é lucrativa. Porquê desfazer-se dela?
Uma das últimas alienações foi a das seguradoras ligadas à CGD. A este respeito, escrevia um colunista dum diário: «E o Estado continua a vender as joias que restam. A alienação a um fundo chinês dos seguros da Caixa foi a operação mais recente, com uma receita que não chega para dois meses de juros de dívida».
Não é difícil reconhecer o sistema político que o Governo aplica, aliás, comum ao que é aplicado pela União Europeia aos Estados, duma maneira geral: o sistema neoliberal.
Para quem conhece, mesmo de modo genérico, a doutrina social da Igreja, fecunda em diversos documentos, as chamadas encíclicas, é fácil perceber as suas caraterísticas de emagrecimento do Estado, alienação do seu património aos privados e fuga às responsabilidades nas áreas sociais, nomeadamente nas áreas da saúde e da educação (vejam o que se passa atualmente).
A grande causa que a Igreja defende é a do bem comum, que diz respeito a toda e qualquer pessoa, independentemente do seu estatuto social. O Estado deve estar ao serviço dessa causa, e não ao serviço privilegiado de certas classes. Afirma o Papa na citada Exortação: «O autor principal, o sujeito histórico deste processo, são as pessoas e a sua cultura, não uma classe, uma fração, um grupo, uma elite (n.º 239)».
A ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não o contrário. A causa do bem comum deve ser promovida pelo Estado e não se compadece com pessoas sem meios para alimentação, sem teto para se abrigarem e sem acesso à saúde e à educação.




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