Fotografia:
Por trás dos números

Primeiro, um apontamento sobre adescida dos juros da dívida pública.
A taxa está, de facto, em queda.
Mas isso tem acontecido nos diversos
países do sul da Europa, não é fenómeno
exclusivo de Portugal, o que parece
significar que nada tem a ver com
o desempenho do nosso país.

Luís Martins
14 Jan 2014

É verdade
que o Governo actual ainda não chegou
ao valor da dívida acumulada pelo executivo
socialista e pode estar ainda relativamente
longe, mas tem gerado dívida
num ritmo que, em termos médios
mensais, é significativamente superior.
O eurodeputado Nuno Melo parece que
não tem analisado devidamente as estatísticas,
doutra forma não se pronunciaria
nos termos como o fez a um jornal
nacional. Tem razão quando diz que foi
devido à dívida que o Partido Socialista
nos trouxe a troika, embora com as assinaturas
também do Partido Social Democrata
e do seu próprio partido. Mas,
não pode esquecer que há também os
negócios supervenientes com essa entidade
internacional, e não têm sido poucos,
que têm sido assinados apenas pelas
duas últimas forças partidárias.
Mais recentemente, vieram a público dados
do Instituto Nacional de Estatística
(INE) sobre a população activa. Na sequência
disso, o Governo aproveitou para
assentar o seu discurso na melhoria do
emprego e na diminuição do desemprego,
procurando dar uma ideia da sustentabilidade
duma tendência positiva. Sabemos,
no entanto, que tudo não passou,
para lá da mentira logo detectada, de um
jogo de números. Na verdade, nem a realidade
é o que tem sido afirmado – lembram-
se de Passos Coelho ter acrescentado
100 mil postos de trabalho aos 22
mil reais? – nem os números reais revelam,
sem uma análise mais fina, a leitura
que nos tem sido feita em voz alta.
Os números do INE, que são os oficiais,
permitem afirmar, de facto, que a taxa
de desemprego tem diminuído sucessivamente
desde há vários meses, o que
nos parece, à partida, um dado de grande
importância. No entanto, uma análise
mais cuidada põe em causa o que se
supunha relevante. Atente-se no seguinte:
as regras de cálculo do indicador de desemprego
permitem considerar empregado
quem trabalha apenas algumas (poucas)
horas por semana. E o que se passa
na realidade do mercado de emprego
é que os postos de trabalho com horário
completo destruídos estão a ser mais que
compensados por postos de trabalho em
part-time. A criação de emprego é cada
vez mais neste regime, o que não se pode
iludir. Por trás das estatísticas há, hoje,
uma realidade diferente de há tempos passados.
Explico. Substituir 100 postos de
trabalho completos, digamos, de 40 horas
por semana, por 100 postos de trabalho
em part-time, por exemplo de 10
horas por semana ou menos, é equivalente
em termos estatísticos para o cálculo
das taxas de desemprego e de criação
de emprego, mas um desastre, um
verdadeiro descalabro, em termos sociais.
Conclui-se, por isso, sem grandes raciocínios,
que o ajustamento de que se fala
nem sequer é superficial, é, pelo contrário,
enganador. Os 22 mil novos empregos
criados até Setembro, sendo postos
de trabalho com horários reduzidos, não
constituem, na maioria dos casos, solução
sustentável para os trabalhadores
e suas famílias. E o pior é que mais de
900 mil trabalhadores portugueses, pelos
últimos dados oficiais, estão nessa
situação, a qual se agravou significativamente
do segundo para o terceiro trimestre
de 2013.
Há também os números dos pensionistas
que entram ou ficam de fora da contribuição
extraordinária de solidariedade. É verdade,
95% ficam de fora. Mas, porque só
ganham remediadamente ou são pobres.
Não é, como o Governo quis convencernos,
de que a medida só atinge quem está
bem na vida. Com a decisão agora tomada,
vai passar a haver mais gente necessitada
e pobre. Enquanto atacam, como lobos,
os reformados, os políticos da nossa
praça deixam fugir os que podiam ajudar
sem precisarem de fazer sacrifícios, aqueles,
por exemplo, que continuam a beneficiar
dos atrasos na actualização das rendas
das parcerias público-privadas.




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