Fotografia:
Bardos que partem e reis que não reinam

1 – Um bom ano de 14 paratodos). Vá-se lá saber porquê,
mas este é o meu 4.º
trabalho seguido, aqui no
jornal, em que dou por
mim a falar da morte de alguém
(e ainda não falei das de Mandela
ou Eusébio, o que antecipadamente
me proponho fazer). Decerto que
não é pessimismo acerca do n.º 14
e do ano que entra. Sobre o n.º 13
nunca resisti a ser supersticioso.
Mas talvez o 14 seja para mim n.º
de sorte, que também desejo a todos
os que a merecerem.

Eduardo Tomás Alves
14 Jan 2014

O 14 do
1.º andar (114) era o n.º do meu
quarto no Colégio Univ. Pio XII,
nos anos em que Lisboa me deslumbrou,
jovem estudante de Direito.
Há 100 anos atrás, contudo, 14
(de 1914) foi ano de início de uma
grande tragédia, a 1.ª Guerra Mundial,
de que este ano se há-de falar
muito. Pois essa sim (e não a 2.ª)
foi a “mãe de todas as guerras” e
seguramente a matriz dos nossos
desgraçados tempos actuais. Mas
mudemos de assunto.
2 – Dois bardos que partem).
Em finais do ano passado morreram,
com poucos dias de diferença,
quem diria, os cantores Manolo
Escobar e António Mourão. Ambos
foram lídimos representantes
de um estilo tradicionalista e “castiço”,
nos nossos dois países irmãos.
Não eram os únicos, decerto,
mas foram dos melhores. Contrastante
foi contudo a duração do
seu sucesso. Escobar teve-o sempre,
Mourão perdeu-o relativamente
cedo, em parte por o terem conotado,
bem ou mal, com o Regime
que acabou em 1974. Nascera
no Montijo em 1936 e foi baptizado
A. Manuel Dias Pequerrucho. Foi
na famosa casa de fados “Parreirinha
de Alfama” que um dia se estreou
com sucesso imediato, aplaudido
pela proprietária, a extraordinária
Argentina Santos. Mourão tinha
aquela cara, aqueles olhos e aquela
pose que recordo em não poucos
ribatejanos e alentejanos que
conheci. E a sua voz era poderosa
mas lamentosa, chorosa, romântica.
Entre outros temas lembro “Ó
tempo volta para trás”, “ Quando
vou para o Ribatejo”, “Ó vida, dá-
-me outra vida”, “Chegaste em dia
de sol” e “ Que povo é este”.
Já a voz de Manolo Escobar, nos
seus bons tempos, essa era nítida,
larga, proclamatória, vibrante, clara,
masculina por natureza. Não deve
ter havido tema tradicional que ele
não tenha interpretado. Olhos verdes,
elegância de hispano-romano,
rompantes de andaluz. Com ele
aprendi, para sempre, há muitos
anos, como se deve cantar esse ícone
“gitano” que é o famoso “Tani”.
Quando morreu o grande Juanito
Valderrama, se não me engano,
vi-o, com outros a cantar (com
“palmas de rumbo”?) aquela emocionante
sequência de “oles” que se
canta nessas ocasiões. Especialista
na copla e sobretudo em pasodobles
e sevillanas, lembro-me dele
a cantar “Francisco Alegre”, “Cocidito
madrileño”, o xotis “Madrid”,
“La zarzamora”, “En tierra extraña”,
“Y se amaron dos caballos”, “Todo
termina en la vida”, “ Ole con ole
y ola”, “ Te canto con mis guitarras”,
“Rocinante”, “ Y viva España”,
“El emigrante”, “ Porompompero”,
“ Mi reina gitana”, “Madrecita M.
del Carmen”, “ etc., etc.
3 – Carlos III de Inglaterra). Nisto,
acho que sou como a maioria.
Sou republicano mas “não pegaria
em armas” se um dia a monarquia
voltasse. Foi com os reis que Portugal
nasceu e se tornou grande.
Porém, um sistema como o monárquico,
que “obriga” a que pessoas
do mérito dum príncipe Carlos,
fiquem eternamente na prateleira,
à espera que a sua mãe morra
ou se torne incapaz, não parece
ser o ideal. Isabel II, com 88 anos,
se fosse livre das pressões maçónicas
e “bancárias” (e gostasse do
seu filho), já teria abdicado há muito.
Porém, a sua sina sempre ditou
que ela tivesse de lhes obedecer.
É aliás confrangedora a propaganda
dos media mundiais a favor
de toda a gente menos de Carlos.
A favor da vã e infiel Diana e agora
do insosso filho de Carlos, William
(e da sua cinéfila e magra consorte,
Kate). Bento XVI abdicou. A rainha
Beatriz da Holanda abdicou, a
favor do seu filho. Por que espera
Isabel II?
4 – D. Duarte Pio). Outro grande
homem que os fados arredaram
do Poder, parece ter sido o actual
duque de Bragança, D. Duarte Pio,
que há 3 anos tive a honra de ter
conhecido num inesperado encontro
e breve diálogo, ocorrido num
certame anual, na improvável Valpaços.
Deu para perceber que é
uma pessoa afável, extremamente
intuitiva e despida de qualquer soberba,
apesar de ser descendente
de D. Miguel (e de quase todos os
reis daí para trás, até Afonso Henriques)
e dos antigos reis medievais
de Espanha, França, Inglaterra (e do
próprio Maomé, parece…). Em recente
entrevista na R. Renascença,
D. Duarte revelou que os actuais soberanos
da Bélgica, do Luxemburgo
e do Liechtenstein são todos descendentes
do rei D. Miguel. Em Portugal,
a descendência de D. Pedro IV
extinguiu-se com o atentado contra
D. Carlos e seu herdeiro Luís Filipe
(1908) e com o facto de D. Manuel
II não ter tido filhos.




Notícias relacionadas


Scroll Up