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O discurso do (querido?) líder

O país mergulhado em tantas dificuldades e as soluções aqui tão perto, concisas, objectivas e eficientes. Pois quem ouviu António José Seguro no último encontro de autarcas socialistas, em Coimbra, onde se encontravam presentes os vencedores das últimas eleições autárquicas, os quais, apesar do risinho amarelo de António Costa, tentaram dissipar as dúvidas que os vêm atormentando. Afinal ali estavam, todos reunidos, a ouvir o seu “(querido?) líder” e próximo primeiro ministro de Portugal.

Narciso Mendes
13 Jan 2014

E as suas palavras fluíram calmas, com frases bem estruturadas, repletas de musicalidade e sentido, pois escolheu-as com precisão para agradar a quem gosta de ouvir facilidades e aventura, constituindo-se num verdadeiro bálsamo para os ouvidos dos autarcas. Falou do défice, da dívida e da austeridade, sempre de baterias apontadas ao Governo. Porém, sem uma só vez ter anuí-do às causas que nos deixaram neste deplorável estado de dependência, face ao endividamento do país, a cuja responsabilidade não deveria ser alheio.
Ora, como águas passadas não fazem mover moinhos, segundo os socialistas, Seguro procurou encontrar formas de escamotear as situações em que eles também foram coniventes e protagonistas. Sobretudo, quando apela aos serviços de proximidade aos cidadãos, esquecendo-se das escolas, maternidades, unidades de saúde e outros serviços encerrados, sobretudo no interior, pela mão do governo de Sócrates. Ou será que já foram parar às calendas do esquecimento os primeiros cortes, com a rentabilização desses serviços,  provocados pelos “PEC”, cujo IV resultou numa intervenção externa de compromisso?
A esquerda portuguesa pode ter memória curta, mas ainda tenho bem presentes, na minha, as campanhas de alfabetização promovidas com o slogan “onde houver um aluno, há um professor”. Acabando por se verificar que, tanta generosidade, se tornava  incomportável para o país. Só que por força das constantes mudanças de rumo do ensino, se passou rapidamente para o lema contrário: “onde houver um professor muitos alunos há-de ter ”. O que veio, inevitavelmente, a culminar com as recentes eliminações de Juntas de Freguesia e de das Estações dos CTT, que eram elementos de referência e de orgulho local.
Mesmo correndo o risco de que me possam achar saudosista, direi que gosto do tipicismo e identidade próprios das nossas freguesias, com as suas tradições e hábitos, a sua Igreja, Escola, Sede de Junta, Clube de Futebol ou até mesmo as peculiares diferenças de pronúncia. Por isso, uma vez que o líder socialista se propõe, como futuro governante, corrigir os erros que provocam a desertificação do país, como o é o caso da união das freguesias, de inegável confusão entre as populações que sempre se respeitaram territorialmente, não posso estar mais cordato com a sua posição.
Só que, como tudo, tem os seus custos e para que as promessas de Seguro possam ser um facto concreto só falta dizer-nos onde se irá financiar para todas as situações que, de uma forma tão cândida pensa resolver. É que não basta dizer que é fácil fazê-lo, pois antes de chegarem ao poder todos o admitem que sim, mas o discurso muda depois de lá estarem, como vimos com seu camarada Hollande. O mesmo sucedendo com as receitas de que o país precisa para satisfazer os compromissos, inadiáveis e urgentes, que se propôs honrar. Falta, pois, que o líder da oposição se deixe de conversa fiada; de fazer o jogo do gato e do rato, entre partidos; saia da retórica fácil, envolvente do seu discurso e se lembre daqueles que, não tendo partido, também são portugueses. Pelo que esperam daquele que aspira a governá-los palavras de verdade; mostre os seus planos e em que pensa cortar, diferente deste Governo, sob o risco de perder toda a credibilidade. Caso contrário, o seu inebriante discurso soou apenas a mais um regabofe de fundos comunitários, a serem distribuídos palas autarquias locais, o que não o legitima como preparado para governar Portugal.




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