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God bless America!

É habitual ouvirmos, no final de cada comunicação ao país, o Presidente dos EUA dizer, de forma clara e concisa, aos seus concidadãos: “God bless America” (Deus abençoe (ou salve) a América), numa alusão à força de bênção e de proteção que ele, enquanto o mais alto magistrado, faz e atualiza. Embora fundada esta expressão numa canção do início do século passado é considerada a mesma quase o hino não-oficial dos Estados Unidos.

A. Sílvio Couto
13 Jan 2014

O que aconteceria, em Portugal, se o Presidente da República usasse tal linguagem ou ousasse colocar Deus presente na realização dos seus atos e na proclamação dos seus discursos? Quem não se lembra duma (quase) ridicularização que foi, há uns tempos atrás, uma leve ironia do atual Presidente quando fez uma breve alusão a Nossa Senhora e às questões da dívida e da austeridade!…

Vem isto a propósito das dificuldades que sentimos em ver Deus ser colocado nas coisas públicas – “res publica” – e de os intérpretes dessas mesmas coisas assumirem a sua fé. Dado que, em breve, se vão perfilar candidatos a candidatos para a Presidência da República convirá que saibamos quem são os ditos, quais os valores que defendem e mesmo quem é que os empurra… de forma clara ou tácita!
Fique, desde já salvaguardado, que a crença – sobretudo de índole cristã – nem sempre funciona como garantia de bom exercício do ministério e nem quem seja (ou se pretenda assumir) agnóstico nos poderá (totalmente) afiançar que será menos bom no exercício de tal tarefa. Com efeito, as pessoas fazem o cargo, mas, muitas vezes, o cargo também molda as pessoas!
Não vamos conjeturar sobre os que já andam na boca e na escrita de alguma comunicação social. Muito menos queremos que estejam, naquele posto, bajuladores da nossa vivência de fé cristã, pois podem tornar-se (ainda) mais perigosos do que os que são (ou pretendem ser) contrários.

= Cidadãos de duas cidades… compenetradas
Na linguagem do cristianismo sempre houve uma forte e clara leitura da dupla cidadania dos batizados: cidadãos/membros da cidade terrena e da cidade celeste. Temos, nos primeiros séculos do cristianismo, um belíssimo texto, que se faz eco desta consciência de pertença: a chamada “Epístola A Diogneto”, onde, nos capítulos cinco e seis, se faz uma leitura teológica, espiritual e cultural desta riqueza de ser cristão, não de uma condição meramente terreste, mas, paradoxalmente, também celeste.  
No Concílio Vaticano II temos um excelente documento que retoma esta leitura dos cristãos no mundo, que é a Constituição pastoral “Gaudium et spes” sobre a Igreja no mundo atual. É digno de registo que, embora siga quase a par e par aquele documento dos primeiros séculos do cristianismo, nunca é citado de forma explícita, sobretudo, nos capítulos terceiro e quarto da primeira parte da “Gaudium et spes”.
Porque sentimos e vemos que, em muitos casos, os cristãos como que se refugiam – ou cedem à tentação de se refugiarem – no templo, esquecendo os compromissos do mundo/tempo e porque, em não menos situações, encontramos pessoas que tentam confundir a sua fé nas reivindicações do mundo, obnubilando o templo, é que consideramos ser oportuno colocar algumas questões para que a nossa fé seja incomodada e a nossa ação seja mais cristâmente espiritualizadora:
– Para nós trabalho é meio de santificação? O local de emprego é exercício de sacerdócio e de profecia?
– Quando rezamos, queremos um certo idílio religioso ou entregamos a vida amassada com lágrimas e dores?
– Construímos nas nossas assembleias de fé pessoas com valores ou geramos pieguices sem miolo?
– Quando votamos sabemos escolher em razão dos valores ou da fachada (simpática) dos candidatos?
– Esclarecemo-nos para votar em consciência ou limitamo-nos a reproduzir uns tantos oportunistas que nos fazem favores…interesseiros?
– Entregamos a outros o que a nós compete decidir em ordem a mundo mais justo, mais humano e, por isso, mais cristão?
Que Deus abençoe Portugal, quer quem nos governa, quer quem é governado… na verdade e na justiça!




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