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Os especuladores recompensam os académicos que os defendem

Os exemplos de professores universitários que, entre nós e lá fora, põem a render a autoridade académica de que dispõem ao serviço de gente, ideias e actividades que prejudicam o bem comum não escasseiam. Esta actividade, com efeitos mais ou menos gravosos, tanto pode ser ditada pela estupidez, quanto, sobretudo, pela ânsia de multiplicar as fontes de rendimento. Há casos que se apresentam particularmente escandalosos. Para não referir exemplos mais próximos, atente-se na longa reportagem que o diário The New York Times publicou no dia 28 de Dezembro sobre dois professores universitários dos Estados Unidos da América, muito conhecidos, que aumentaram significativamente os proventos por se terem colocado ao serviço de especuladores (“Academics Who Defend Wall St. Reap Reward”).

Eduardo Jorge Madureira Lopes
12 Jan 2014

Conta o jornal que os trabalhos citados nas acções judiciais interpostas por instituições financeiras para bloquear as restrições à especulação bolsista eram da autoria de um professor universitário, cujo nome o jornal, obviamente, refere, remunerado como consultor de uma das principais partes interessadas do processo, a International Swaps and Derivatives Association, uma associação muito controversa que reúne os principais bancos de investimento. Embora se apresentasse apenas como professor universitário, o indivíduo foi, nos últimos anos, remunerado por, entre outros, um banco e por uma série de empresas que especulam nos mercados da energia.
O jornal recorda que este professor teve uma memorável intervenção pública há alguns anos, quando, após o preço da gasolina ter tido um forte aumento nos Estados Unidos da América, o Congresso norte-americano admitiu a introdução de limites à especulação nos mercados do petróleo. Em artigos publicados em vários jornais, incluindo no Wall Street Journal, o professor gritou que se tratava de “uma caça às bruxas”. O académico que queria que tudo continuasse em roda livre, digamos assim, desdobrou-se ainda em conferências e participou em comissões de aconselhamento.
O The New York Times identificou um segundo professor universitário, um dos académicos mais citados quando se tratava de brandir argumentos em favor dos efeitos benéficos da especulação na formação de preços nos mercados agrícolas. O fornecedor de argumentos “científicos” aos especuladores era, simultaneamente, consultor de uma das empresas que trabalha com bancos de investimento e fundos especulativos no mercado de matérias-primas.
As opiniões e os ensaios deste professor foram amplamente promovidos de modo a serem incluídos nas publicações mais influentes. Entre os promotores da divulgação, encontrava-se o departamento de relações públicas da bolsa de Chicago.
A universidade em que o académico trabalha também lucrou com a coisa, recebendo doações da bolsa de Chicago e de fundos com interesses no mercado especulativo, que servem para pagar bolsas de estudo e conferências, além da construção de um laboratório idêntico em tudo às salas de mercado bolsista.
O dinheiro dos especuladores, segundo a investigação do jornal, não se destinava apenas a recompensar directamente os professores universitários. Para aumentar a notoriedade dos académicos e tornar mais forte o eco do que eles diziam ao serviço de ilegítimos interesses alheios, os especuladores também financiaram publicações e sites na Internet.
Claro que os professores universitários a quem tão reprováveis práticas são imputadas negam que sejam influenciados no seu trabalho pelo dinheiro que recebem dos especuladores. Se isso fosse verdade, os serviços que eles lhes prestaram seria ditado não só pela ânsia de multiplicar as fontes de rendimento, como também pela estupidez.
Recordando que, no filme Inside Job, foram vários os professores universitários que surgiram a gabar as virtudes de um sistema financeiro calamitoso, o The New York Times nota que a promiscuidade entre a academia e os negócios se tornou um tema incontornável a partir do momento em que eclodiu a crise financeira. Estas relações perigosas devem merecer um atento escrutínio e uma firme reprovação.




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