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O desafio da Educação para a Mobilidade Citadina

As últimas décadas foram, na generalidade, um tempo perdido para as cidades e para a sua capacidade de planeamento urbano capaz de traduzir a vontade de mudar, tornando-as espaços sustentáveis e mobilizadores dos cidadãos em torno da sua mobilidade. À medida que se percorrem os compêndios, se leem as novas tendências e se olha para a realidade concreta, tem-se a noção de que as contradições entre as necessidades e os condicionalismos atuais são elevadas, a ponto de colocar em causa a política inovadora que se pretenda implementar.

Paulo Sousa, Maria Sameiro Carvalho, Paulo Sampaio e José Oliveira
12 Jan 2014

O tributo emanado do “Pacote da Mobilidade”, do Instituto de Mobilidade e Transportes, e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, promete-nos uma ideia de “Mobilidade Sustentável”, para a qual devem contribuir os cidadãos, com a alteração dos seus comportamentos, no que é designado como uma “nova cultura de mobilidade”.
Recursos escassos e um número elevado de necessidades obrigam os decisores a priorizar as políticas de maior importância e impacto na vida dos cidadãos. Certa é a necessidade de atuar sobre o sistema de transportes, a sua interoperabilidade, os condicionalismos à circulação de pessoas e bens, o papel dos cidadãos, o papel das tecnologias de informação e comunicação ao serviço de uma mobilidade sustentável e do desenvolvimento económico das regiões.
A diversidade dos problemas torna ainda mais complexa a criação de uma resposta única. Quando se trata de alterar comportamentos individuais e institucionais associados, por exemplo, ao uso excessivo de transporte individual, não há uma única resposta, mas um conjunto de ações que integradas podem contribuir para alterar o paradigma atual alicerçado num divórcio entre as necessidades dos transportes públicos, as pessoas e o desenvolvimento de uma política sustentável com metas de redução de emissões CO2.
O caso de Braga é paradigmático por revelar padrões de mobilidade pouco sustentáveis com uma tendência crescente de utilização do transporte individual (com o evidente agravamento do congestionamento de tráfego quer no centro urbano quer nas vias de acesso) em detrimento do uso dos transportes coletivos ou da realização de viagens em modos suaves (a pé ou de bicicleta). Com efeito, um estudo recente realizado no âmbito do Quadrilátero Urbano, Estudo de Mobilidade Integrada do Quadrilátero (2013) indica que, na região, cerca de 66% das deslocações dos residentes (e 87% dos não residentes), são realizadas em transporte individual e que a percentagem de viagens, dos residentes, em transporte coletivo é de cerca de 10%, na sua maioria, utilizadores que não têm alternativa.
Tempos médios de viagem elevados, comparados com o transporte individual, a ausência de integração física e tarifária entre modos, a falta ou deficiente informação nas paragens e/ou estações são alguns dos fatores que têm contribuído para a baixa competitividade dos transportes coletivos. Em paralelo temos assistido a alguma praticas de promoção do transporte individual, como a deficiente regulação da procura de estacionamento e a elevada indisciplina no estacionamento que permitem manter a tendência elevada de uso de transporte individual à custa de uma má qualidade de utilização do espaço público e consequente diminuição das condições de segurança de circulação. A combinação destes fatores constitui parte de um diagnóstico no qual é urgente uma atuação integrada para uma mobilidade sustentável.
Os indicadores atuais mostram como é árduo inverter esta realidade que nos remete para transportes caros, demorados e que não satisfazem as necessidades das pessoas. Quando somos confrontados com estes factos percebemos que é necessária uma autêntica revolução na mobilidade, com algumas alterações significativas do figurino atual das nossas deslocações.
Cidades como Braga terão que se reinventar a partir da ideia da massificação do uso do transporte público, refletindo a necessidade de um novo transporte coletivo que seja competitivo e que proporcione conforto e rapidez.
Ao ler o Livro Branco da Comissão Europeia (“Roteiro do espaço único europeu dos transportes”) para o setor e olhando para as linhas principais definidas em torno do conceito de transportes eficientes e eficazes, amigos do ambiente, seguros para cidadãos, percebemos que a tarefa é gigantesca e mais do que investimento económico que será necessário, importa começar por definir uma política de Educação para uma Mobilidade Responsável e Sustentável, tarefa essa de médio e longo prazo, incompatível com os ciclos eleitorais.




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