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Em tempos de crise

Em tempos de crise, nacional e mundial, talvez não seja despropositado analisar o que se passa nas sociedades de consumo, como a nossa. O consumir e o gastar, não são mais do que a utilização de um bem económico ou de um serviço, na necessidade directa da satisfação de uma necessidade. Sendo assim, o consumo é lícito, pois se quiséssemos fugir ao consumo de uma maneira radical acabaríamos por morrer, não satisfazendo as legítimas necessidades. Tem havido casos de pessoas que morrem na miséria, com falta do indispensável e que afinal dispõem de uma choruda conta bancária. Penso que casos desses são patológicos, mas são verdadeiros. Num maior ou menos grau temos de consumir, e o que precisamos é ter critério para distinguir o necessário do supérfluo.

Maria Fernanda Barroca
11 Jan 2014

A crise que nos afecta a nível global é causada pelo desejo imoderado de criar necessidades, acumular bens e utilizar serviços que não dão felicidade e mesmo, muitas vezes, nem melhor qualidade de vida. Os muitos meios postos à nossa disposição acabam por nos tirar a liberdade e são causa de inquietação com medo de os perder.
Outro factor das inúmeras desigualdades na sociedade actual, é a falta de valores éticos – a crise que nos afecta tem a sua raiz numa crise de valores. Há quem não olhe a meios para atingir os fins e se deixe envolver na espiral da corrupção. Essa corrupção degrada quem a pratica e prejudica as suas vítimas.   

Na nossa sociedade e penso que Portugal, neste campo, vai na vanguarda, há um binómio angustiante: a par de situações de degradante miséria, encontramos sinais exteriores de riqueza verdadeiramente escandalosos. Alguns gastam num jantar o que muitos têm para viver o mês todo, com pensões e salários de miséria. Uns têm de trabalhar largos anos para no fim auferirem uma pensão ridícula; outros (estou a pensar de modo especial na classe política), trabalham uns anitos e não só trazem uma pensão de reforma elevada, como também trazem o «passaporte» para um novo emprego bem remunerado que lhes vai trazer uma nova reforma acumulável.

A excessiva disponibilidade de todo o género de bens materiais, de que dispõem algumas camadas da nossa sociedade, torna os homens escravos do gozo imediato, sem outro horizonte que não seja a substituição contínua das coisas que já possuem por outras mais modernas – no vestir, na posse de telemóveis, televisores, aparelhagem sonora, automóveis e até casas. (E com a ausência de valores, até substituem a mulher com quem casaram e é mãe dos seus filhos…).

Mergulham desenfreadamente na civilização do consumo e com a consequente carga de desperdício. Todos estamos a experimentar os tristes efeitos desta sujeição ao mero «consumo», caindo no materialismo. O resultado é um estado de insatisfação radical que quanto mais tem mais deseja, com manifesto prejuízo dos valores interiores que são sufocados.

O «ter» sem o desejo de «ser» causa uma das mais graves injustiças de que sofre a nossa sociedade: alguns e são muitos, possuem demasiado e outros, e também são muitos, não têm o suficiente para satisfazer as necessidades básicas: não têm casa, não têm cuidados de saúde, não têm acesso à educação para os filhos, não têm possibilidade de descansar, não podem levar uma vida com um mínimo de dignidade. Assim vemos proliferar, entre nós, os sem-abrigo, os excluídos da sociedade, os marginalizados.

O mal não está em «ter», mas em não respeitar a qualidade e a hierarquia dos bens que possuem, bens esses que devem estar disponíveis para o desenvolvimento do «ser».

Será que em 2014, continua tudo na mesma? A crise vai continuar, e parece que dá lucro e não quer ir embora; os valores morais estão cada vez mais esfarrapados e o desnorte é tal que até chegaram a pensar que o Papa Francisco, «tinha acabado com o pecado», segundo Eugénio Scalfari no Jornal “La Republica” de 29 de Dezembro de 2013. E também há quem afirme que o Papa Francisco apadrinha a homossexualidade, o aborto e os casamentos gay e de microfone aberto até dizem («é um gajo porreiro!»). É evidente que estas pessoas estão a distorcer as declarações do Papa à luz das próprias obsessões ou ideologias. Seria mais proveitoso que todos escutássemos o que efectivamente o Papa diz, principalmente para nos inculcar a preocupação pelos mais desfavorecidos e para evitarmos cair no consumismo.
                                                                              
NOTA: Faço questão de informar que a frase, entre aspas: («é um gajo porreiro») não é minha, que não uso tal linguagem, mas sim do «microfone aberto».




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