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Só não vê quem não quer!

Muito se fala em combater a pobreza e no entanto seria importante começar por atacar as suas causas. Os efeitos estão à frente dos nossos olhos, crianças e adultos a pedir pelas ruas ou batendo à porta nas aldeias, sem falar naquelas situações confusas de  pessoas com carrinho de criança, que depois afinal só querem dinheiro! O Estado Social adoeceu graças a sucessivas medidas de austeridade que enviaram para a pobreza muitos milhares de cidadãos, ao mesmo tempo que o Governo justificava cada medida com a necessidade de pôr fim ao despesismo de muitos anos.

J. Carlos Queiroz
10 Jan 2014

Esqueceu, porém, de referir quem nos conduziu para tanto endividamento, mesmo tendo o país obtido milhões de Euros da comunidade europeia para ajudar às mudanças verificadas. Com mais ou menos “troika”, obedecendo ou mesmo indo para além do tão falado memorando de entendimento, a verdade foi sempre a mesma, cada visita da “troika”  era sinal de mais austeridade. Curiosamente fomos conduzidos durante décadas pelos políticos dos partidos do chamado “arco da governação”. Finalmente, o Governo descobriu que tem havido muita austeridade e está na hora de relançar a economia.  Ninguém acredita em soluções por decreto, mas em medidas de austeridade sempre que algum político fala ao povo. Será que um desempregado pesa menos no Orçamento do Estado do que um funcionário público com vencimento reduzido?
Esta pergunta aconselha-nos a reflectir sobre as medidas de flexibilidade que permitem despedir mais facilmente ou pelo menos reduzem encargos nos despedimentos. Na verdade, um desempregado não produz, perde a esperança e empobrece. Um trabalhador, pelo contrário, contribui para a sustentabilidade do sistema de Segurança Social ao mesmo tempo que não se torna um peso social para o próprio Estado. Certamente, muitos políticos, economistas e analistas, terão justificações e argumentos para defenderem outros pontos de vista. Porém, perante a realidade, ouso dizer que prefiro mais Estado Social e menos pobreza, que depois conduz a uma dependência social ou mesmo exclusão social. Mas será que não estamos a falar de pessoas e de direitos, quando discutimos  questões de mais ou menos encargos sociais? Pode um Estado caminhar de consciência limpa porque reduziu milhões através de medidas que originaram tanto mal estar social?
Não estamos a falar de “gorduras do Estado”, muito menos de regalias ou excepções  concedidas por políticos,  mas simplesmente a avaliar consequências e implicações na vida das pessoas. Só não vê quem não quer, porque desde procura de alimentos nos caixotes do lixo até roubo de maçãs nos caixotes situados nas entradas de pequenos estabelecimentos comerciais, é já prática de muitos cidadãos e não se diga que alguém o faz por gosto. Por outro lado, falamos em solidariedade e apelamos frequentemente à ajuda, mas  não é fácil ser solidário quando por um lado  foram “confiscadas pensões” e por outro os impostos e as situações familiares foram drasticamente afectadas pelas medidas de austeridade. O trabalhador e o pensionista fazem hoje muitas contas e privam-se de bens mesmo necessários, para conseguirem viver sem acumular dívidas. Este cenário pretende apenas alertar para as políticas seguidas que esquecendo as pessoas, têm destruído a sua estabilidade económica e mesmo familiar. Governar um país endividado não deve ser fácil, mas nenhum governo pode ignorar os efeitos das medidas quando a pobreza mostra miséria, fome, exclusão social. Que pensar das medidas de recrutamento de políticos para cargos públicos com remunerações elevadas e ao mesmo tempo tomar conhecimento do drama vivido por cidadãos que perderam o posto de trabalho, passaram pelo desemprego e agora mendigam uma esmola para comer.
Gostaria de acreditar que estes factos não reflectem a verdade, porém a realidade da pobreza em Portugal é  hoje um fenómeno lamentável que não podemos ignorar. Tomar medidas de redução de postos de trabalho e de custos não pode ser mera medida de austeridade para apresentar números, tem de consistir antes num exercício prévio e permanente de análise sobre consequências  na vida das famílias. Só não vê quem não quer, é uma reflexão e um sinal  no tempo, sendo certo  só a vontade política pode efectuar a mudança.
Portugal tem de encontrar um novo rumo, onde cada pessoa seja efectivamente respeitada na sua dignidade.




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