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Portugal “navega à vista”…

Estou cada vez mais tentado a concordar com alguns historiadores que afirmam que o nosso país anda sem rumo desde os idos de 1580, altura em que perdemos a independência e nos morreu Camões. Na verdade, o que desde aí temos visto é que Portugal faz “navegação à vista”, sem qualquer plano estratégico a longo prazo que envolva os portugueses num “projeto nacional” de relevância.Durante a 1.ª dinastia régia, o nosso país teve como “desígno” a consolidação da sua independência face a Castela. Desde D. Afonso Henriques até D. Fernando, Portugal viveu empenhado nesse “projeto”, centralizando nele a maior parte das suas energias e dos seus objetivos comuns.

Victor Blanco de Vasconcellos
9 Jan 2014

No início da 2.ª dinastia, estabelecida que foi a paz com os castelhanos, a Ínclita Geração lançou aos portugueses um novo “desafio global”, grandioso mas não impossível de concretizar: o alargamento das suas fronteiras, quer através das conquistas em África (que foram mais um “instrumento” do que um objetivo final), quer através do descobrimento marítimo de novas terras e de novas gentes. Foi um projeto que se iniciou nos princípios de 1400 e só se concluiu 100 anos depois, com a descoberta do Brasil. O que significa que, se grandiosa foi a Gesta dos Descobrimentos, essa grandiosidade que projetou Portugal para os confins do planeta ficou a dever-se a um “plano” bem definido, estabelecido a longo prazo e envolvendo a sociedade portuguesa na sua globalidade – nunca se arredando pé desse “desígnio” até se alcançar o objetivo final, pese embora os enormes sacrifícios que se tornou necessário suportar para se atingir essa meta.
E se ainda hoje sentimos orgulho nesse “País das Descobertas” de outrora foi porque alguém (os governantes da Nação, obviamente!) souberam estabelecer um grandioso desígnio nacional e “planificá-lo” a longo prazo, juntando as energias coletivas para esse fim.
Após o desaparecimento de D. Sebastião e a perda da independência nacional para os Filipes de Espanha, nunca mais os governantes de Portugal foram capazes de criar um “plano estratégico” a longo prazo, que voltasse a envolver a generalidade dos portugueses em prol de um objetivo comum e destinado a dignificar e a engrandecer o País… E durante mais de 400 anos temos andado “à deriva”, ora tentando demonstrar uma grandeza e um riqueza que progressivamente fomos perdendo, ora envolvendo-nos em “tricas” políticas e em guerras fratricidas que, paulatinamente, levaram o País à ruína e o Povo à miséria!
Aquando do 25 de Abril de 1974, os portugueses ainda acalentaram o sonho de que “novos ventos” viriam endireitar a barca nacional e dar-lhe um novo rumo, bem definido e a prazo longo – capaz de pôr fim a quatro centúrias de inoperância e de desleixo da governação. Puro engano! A ansiada Democracia – como se tem visto nos últimos tempos – está pelas ruas da amargura; o desejado Estado de Direito – como se tem constatado ultimamente com os abanões aos princípios constitucionais – está quase de rastos; e o pretendido Desenvolvimento Económico e Social – como se tem verificado nas últimas décadas – está “transfigurado” em pobreza crescente, em miséria generalizada, em angústia permanente, sem fim à vista…
Quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia), houve ainda a esperança de que o País pudesse aproximar-se do desenvolvimento económico e social que se verificava na maioria dos países do velho continente – designadamente pela “receção” de muitos milhares de milhões de contos/euros, fruto do chamado “plano europeu de coesão”. Outro puro engano! A “navegar à vista”, os governantes portugueses desbarataram esses milhares de milhões em pseudo-projetos sem rumo definido e de longo prazo, arruinando ainda mais o País com a destruição do seu tecido empresarial, agrícola e marítimo – nomeadamente ao “pagarem” para não se produzir…
E hoje, com as finanças públicas apenas repletas de cotão e com a economia transformada numa amálgama de frágil terra barrenta, o País continua sem um “desígnio nacional” que envolva as gerações presentes e futuras em prol de um projeto coletivo, capaz de voltar a engrandecer a Nação! Fala-se no retorno à agricultura, mas aposta-se em “hortinhas” citadinas; fala-se em retorno ao Mar, mas destroem-se as estruturas marítimas; fala-se em aposta na inovação industrial, mas atiram-se para a emigração os jovens com a formação adequada para esse efeito…
Portugal continua a “navegar à vista”. Sem rumo nem farol orientador. Até quando? Até quando?…




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