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Deixem-nos Deus

É evidente que não ouvi nem li todas as referências à mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz. De todas as que li e ouvi, não me parece que tenham posto o acento na Fraternidade ou feito referência à existência de um Pai comum. O programa de António Rego na TVI, no dia 5, foi uma honrosa exceção. Pelo que verifiquei, concluí ser Deus um grande ausente na vida de algumas pessoas e em alguns setores da vida coletiva. E de tal maneira se impôs a ideia do ateísmo e do agnosticismo que se evita a palavra Deus. Não por respeito, mas talvez por medo ou por vergonha.

Silva Araújo
9 Jan 2014

Não quero fazer juízos infundados mas foi essa a conclusão a que cheguei. No entanto, o grande tema da mensagem do Papa é a vivência da Fraternidade baseada na existência de um Pai comum. É esse o caminho para a paz. Somos irmãos porque filhos do mesmo Pai.
 
Cito a mensagem (n.º 3):
«A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus». (…)
 
«Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos.
Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos».
 
 Suponho não exagerar se disser que Miguel Torga passou grande parte da vida a procurar convencer-se da inexistência de Deus. Contudo, no seu livro «Poemas Ibéricos» escreveu: «a quem Deus não ajude, tudo são Índias de desilusão»  («Poesia Completa», 1.ª edição, pag. 713).
O bem comum exige não tenhamos receio em dizer às pessoas que precisamos de Deus. Deus, o Abbá (Paizinho, Papá) a quem se refere S. Paulo (Gálatas 4, 6). Deus, um Pai carinhoso e bom. Deus, que é Amor, que é Misericórdia, que é Perdão.
 O século XX mostrou à saciedade os trágicos resultados de uma sociedade que negou Deus. O ateísmo gerou sociedades desumanas. Produziu tiranos. Originou a vergonha dos Auschwitz e dos Gulag. Produziu a série de crimes do comunismo de Estaline e do nazismo de Hitler. Se tivesse havido verdadeira fé em Deus, Pai de todos, a história não falaria, pelos piores motivos, em nomes que me dispenso de citar.
É a descrença que leva à coisificação da pessoa, ao tráfico de seres humanos, à avidez do lucro, à idolatria do dinheiro, à exploração do outro, à corrupção e à fraude.
 
A propósito da necessidade de Deus não deixo de citar Guerra Junqueiro («Obras de Guerra Junqueiro (poesia)». Lello & Irmão – Editores, 1972, pag. 764):
 
Morreu-me a luz da crença – alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.
 
A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.
 
Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.
 
A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo.
 
A certa altura do seu peregrinar, o mesmo Junqueiro soube descobrir na natureza as pegadas de Deus (Idem, pag. 1032):
 
«Sobre o grande problema insondável da vida,
Diz-me mais numa encosta uma rosa florida,
Uma abelha a zumbir sobre o mel dum nectário,
Uma ave num ramo, uma cruz num calvário,
Um cardo, um cardo só na aridez das charnecas,
Que as vossas preleções e as vossas bibliotecas,
Ó sábios que negais a luz da Providência!»
 
Deixem-nos Deus, por favor. Precisamos dEle.




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