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Os nossos emigrantes

O tempo é sempre momento para reflexão e, apesar de terminada a quadra natalícia, vem a propósito falar dos nossos emigrantes, daqueles que, nos longínquos anos cinquenta e sessenta do século passado “fugiram” para França e para a Alemanha, “fugiram” da vida militar e da guerra colonial em 1961, por falta de emprego em Portugal, especialmente no sector agrícola, cuja mão-de-obra diminuiu com a vinda da mecanização no sector.

Adão Gomes Pereira
7 Jan 2014

A grande maioria dos nossos emigrantes fê-lo clandestinamente, à procura de trabalho, de melhores condições económicas e, principalmente, sabendo que em França havia necessidade de muita mão-de-obra, cujo governo francês tinha implementado o plano “Marshall”, com a ajuda financeira dos Estados Unidos da América, no pós-segunda guerra mundial, para a reconstrução do seu tecido social e a sua economia, que tinha sido praticamente destruída pelos alemães, comandados e obcecados por um líder completamente paranóico, que pretendia tresloucadamente criar uma nova raça, a ariana. E a actual Alemanha está novamente forte, financeira e economicamente… Precisamos de muita atenção. Os tempos de hoje apresentam-se cheios de imprevisibilidade. E o desemprego que abrange a Europa é aterrador.
Os nossos emigrantes aventuraram-se sozinhos, deixando os seus familiares em Portugal, sujeitaram-se a viver em condições muito difíceis, à procura de um melhor sustento familiar e, com muito sacrifício e poupança, enviavam dinheiro para os seus e para os cofres do Estado português, trabalhando horas a fio.
Em Portugal, eram pobres, trabalhavam e ganhavam muito mal. Muitos não tinham emprego, tinham pouca instrução e pouca qualificação profissional e, chegados a França, foram trabalhar para as fábricas e para a construção civil, os homens, e, mais tarde, as mulheres sujeitaram-se a fazer limpezas em casa de franceses mais favorecidos economicamente.
Pouco a pouco, porém, os emigrantes portugueses integraram-se plenamente na sociedade francesa. Volvidos cinquenta, sessenta anos, estes aventureiros emigrantes formaram família no país de acolhimento, seus filhos nasceram em França, têm mais instrução e qualificações profissionais, e até já ocupam lugares de destaque na sociedade francesa. Um filho de emigrante português é presidente duma câmara francesa. Que orgulho!
Os nossos emigrantes, que venceram tantas adversidades, encontraram em França o que seria impossível conseguir no seu país de origem. Construíram a sua casa em Portugal, compraram automóvel e obtiveram reformas do Estado francês, porque contribuíram com os seus impostos.
Sentem-se recompensados pelo sacrifício e coragem que tiveram enquanto emigrantes, venceram e, hoje, passam metade do ano em Portugal e o resto no país que contribuiu para alcançarem o que tanto sonharam, apesar do muito suor e lágrimas, separações familiares e da terra natal – e, por isso, todos os sacrifícios e sofrimentos valeram a pena, porque o que ganhavam e poupavam serviu para melhorarem o seu estatuto social e económico.
Os nossos emigrantes, pelo que deram e fizeram através da sua coragem e dedicação, merecem todo o respeito. No nosso país devem ser devidamente respeitados e integrados.
Atualmente, temos os “novos emigrantes”. Estes iniciaram uma aventura diferente. Infelizmente, viram-se obrigados a emigrar porque em Portugal, volvidos tantos anos, as condições de trabalho existentes não se coadunam com as qualificações académicas e profissionais para este novo tipo de emigrantes. Que tudo corra como ambicionam…
Portugal deve muito aos portugueses que emigraram. A França já lhes prestou homenagem. Emigrar é sempre difícil e a adaptação a outras culturas é sempre algo que não é fácil. Em Laundos, freguesia da Póvoa de Varzim, um honroso emigrante ofereceu, com o seu dinheiro, um bonito monumento que evoca estes emigrantes heróicos. Portugal, infelizmente, ainda não evocou nada que realce o apreço que deveríamos ter pelos nossos emigrantes.




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