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Crónica de Reis

Ontem, o calendário civil anunciava o dia de reis, que em Portugal já não se comemora como em tempos idos. Apesar disso, continuamos a ter os nossos magos. Eles andam por aí. Umas vezes apresentam-se, outras não. Conhecemos alguns. Desses, uns deixaram de exercer, outros no activo. É destes a que me refiro nesta crónica de reis. O mago Passos Coelho está entre nós desde meados de 2011. Chegou antecipadamente, tendo criado expectativas de que com ele nos chegariam as melhores prendas. Não foi o caso e tem-se demorado por cá. Para muitos de nós, há demasiado tempo. Não nos trouxe nada de bom e chegou com maus propósitos.

Luís Martins
7 Jan 2014

Chegou decidido a estragar a vida dos funcionários públicos e dos reformados e pensionistas, mas também a de quase todos os cidadãos. Alguns poucos, sabemos, sempre os poupou e poupará até que regresse à sua terra, não se sabe bem quando, embora teime em ficar até 2015. As suas prendas malfazejas, distribuídas pelos do costume, logo no início de cada ano, levam-nos a não tolerar a sua permanência por mais tempo. Desde que tomou posse da função, nunca se apresentou com um carinho. Nas bossas do seu camelo trouxe sempre as receitas de muito desemprego, impostos com fartura, vida difícil para os habitantes desta República e ainda por cima a factura para pagarmos as suas asneiras e todos os seus caprichos. No último carregamento também foi assim. Com ele veio a intenção de afrontar o Tribunal Constitucional, tendo patrocinado várias tentativas para o reduzir a responsável pelos males de que padece o país. Há poucos dias deixou-nos uma prenda que considerou “decisiva”. Não se percebe o que é que quis dizer com o qualificativo, mas coisa boa não foi certamente. Imagino, mas certeza absoluta não tenho. Explico-me: se fosse decisivo, o envelope orçamental para 2014 seria diferente. Teria outras apostas, outras opções. O ano de 2014 seria decisivo, sim, mas com outra política, com uma política voltada para o crescimento e seria tanto mais decisivo quanto mais amigo fosse do investimento e do emprego.
O outro mago no activo é Paulo Portas. Tem estado por cá desde que o mago Passos Coelho lhe pediu que o ajudasse a interpretar a estrela. Até agora, teve um papel relevante para o mago-mor. Incentivou-o, nomeadamente, nas compras das prendas para os funcionários do Estado e os pensionistas. Nas bossas do seu camelo tem trazido as réguas e os esquadros que o seu superior tem distribuído pela restante comitiva que acompanha um e outro. Ficou com um exemplar de cada com que tem desenhado as várias linhas vermelhas que o tornou famoso, mas mal querido pelos que têm sofrido com o movimento dos traços encarnados. Ainda antes da época de prendas, a meio do ano transacto, trouxe–nos um embrulho que nos custou os olhos da cara. Lembram-se da decisão irrevogável? Os mercados reagiram mal. Também não apreciamos, mas houve quem lhe perdoasse o gesto e lhe tivesse rogado que não voltasse logo à sua terra, que ficasse, pois lhe seria dada túnica correspondente à categoria de mago superior, aliás, aquela que há tanto tempo ansiava, depois que se cansou do vai e vem constante do oriente para ocidente e vice-versa. No último período de entregas, trouxe-nos um relógio, quiçá, para nos distrair com o tiquetaque barulhento das promessas que fez antes do mandato.
O mago António José Seguro, esse, embora habitando o mesmo espaço que os primeiros, é ainda um candidato a distribuir prendas. Pronunciou-se já que não pretende repetir os embrulhos que nos trouxeram os magos Passos e Portas. Não nos disse ainda com que brindes nos quer presentear quando chegar a sua vez. Mas, era bom que o dissesse desde já para lhe prepararmos recepção correspondente ou deixarmos o tapete vermelho para outro. Mesmo que se porte bem e não nos ameace com a factura das prendas, como os actuais, precisamos de saber se chegará só ou acompanhado. E se vier acompanhado, se haverá mago novo ou se será um dos que estão agora no activo ou mesmo os dois.




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