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O “sabe ou não sabe”

Tem passado na RTP1 um concurso com perguntas e respostas, feitas na rua, concurso esse que se propõe dar dinheiro às pessoas e em que o concorrente, escolhido ao acaso, apenas tem de arranjar alguém que responda por ele. E tanto poderá ganhá-lo com uma resposta certa, como com uma errada. Este modelo de passatempo não premeia a sabedoria de quem concorre, mas que, com a ignorância ou não de quem responde, poderá, eventualmente, meter uns euros ao bolso. Nada tenho a opor – antes pelo contrário: até relevo a queda e o à-vontade que o apresentador e conhecido radialista demonstra, pondo em evidência toda a sua juventude e talento. Apenas o título, em epígrafe, me faz questionar alguns aspectos da vida nacional em que, muitas vezes, somos confrontados com quem deveria saber e não sabe.

Narciso Mendes
6 Jan 2014

Mas se o saber não ocupa lugar – como lá diz o velho ditado – é o não saber que no nosso país tem sido, constantemente, premiado. Assim, vemos hoje o próprio Estado a duvidar do ensino que tem sido ministrado nas escolas portuguesas, como sucedeu, recentemente, com os exames dos professores saídos das E.S.E. Dúvidas que os nossos licenciados raramente encontram quando saem do país, ao serem bem recebidas classes como as dos próprios docentes, engenheiros, cientistas, gestores e outros. Ou será, por acaso que o empregador estrangeiro “sabe ou não sabe” do seu valor quando os galardoa e distingue com excelência e mérito? Eventualmente a esta hora, se tivessem continuado por cá, estariam no desemprego – rejeitados, humilhados, condenados a viver sem dignidade ou sem abrigo, como já acontece em Portugal.
Sendo assim, por que razão não nos organizamos de forma a serem aproveitadas essas potencialidades humanas para bem de todos e do país? Como é possível que tanta mediocridade se instale nos meandros da política nacional? Gente esta que bem mereceria ser sujeita a uma séria avaliação, fora dos partidos, em que cada um demonstrasse se “sabe ou não sabe” o que é servir a causa pública, defender os interesses nacionais e respeitar a democracia; fazer contas bem feitas de molde a encontrar outros factores de austeridade que não sejam os cortes às pensões e salários, mas que saiba emagrecer o monstro despesista que resiste, com 230 deputados, inúmeros assessores,  parcerias público-privadas, empresas  municipais, etc.; ou até os relvados sintéticos e elefantes brancos que vão aparecendo por aí…
Daí, surgir uma casta de políticos (de meia tigela) a serem premiados com cargos que não sabem prestigiar com a devida ciência política. É que os padrinhos,  amigos, comparsas do avental, ou as cunhas começaram a falar mais alto e respondem por eles. Ou será que um qualquer autarca recém-eleito, de qualquer partido, “sabe ou não sabe” que é no aparelho municipal que se encontra a verdadeira alavanca que guinda os seus rapazes para o carreirismo político? Que tem sido o balde da cola e o escadote o “requisito mor” para terem acesso a um tacho?  E “sabe ou não sabe” que as nomeações são sempre avessas à meritocracia, por vezes com situações que me fazem lembrar os tempos da minha vida militar em que um escriturário passava a ser cozinheiro, ou um bombeiro amanuense?
Passadas que foram quatro décadas da “Abrilada”, ainda não se vislumbram vontades para uma verdadeira revolução a ser levada a cabo nos partidos políticos. Sobretudo, para serem encontrados mecanismos de filtragem que façam inverter a tendência, em curso, de descredibilização da nossa classe política, impedindo a entrada de pérfidas personalidades, astutas e aventureiras.
Portugal só vencerá os desafios do futuro com todos aqueles que saibam, com a sua inteligência, sabedoria e valor, honrar os lugares que lhes são confiados, cultivando a competência e o patriotismo de que o país carece, arredando todos os que não sabem redigir um ofício ou interpretar uma lei para os concursos televisivos. Caso contrário estaremos “feitos ao bife”, segundo Vasco Palmeirim.




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