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Escutar o silêncio

Foi com surpresa que, por estes dias, li um comentário sobre a necessidade – nalguns casos mesmo exigência – do silêncio em concertos de música, seja dita clássica, seja nos concertos rock, seja ainda nos espetáculos de música popular. A questão é tanto mais acutilante quanto alguns dos músicos, dizem que se sentem incomodados quer com as fotos, quer com os comentários dos espectadores ou ainda da (excessiva) interação através das (ditas) redes sociais, pelos posts colocados ao tempo em direto…

A. Sílvio Couto
6 Jan 2014

Se esta reação é inesperada, pois o escutar da música como que provoca nas pessoas uma certa sintonia, o que dizer da ausência de silêncio em tantos momentos e lugares de envolvência pública.
Vejamos breves exemplos… um tanto paradigmáticos:
– Na Assembleia da República é impressionante a quantidade de comentários aos discursos ou intervenções dos adversários, que, mesmo sem o microfone ligado, se ouvem os mais díspares impropérios e, casos houve, de pateado e quase de insurreição.
– Repare-se na confusão que são os programas televisivos onde se tenta discutir um tema: os intervenientes não se escutam e, por conseguinte, não se fazem ouvir… tal a barulheira em concorrência… e se for sobre futebol a coisa azeda, quase só faltando chegarem a vias de facto.
– Atenda-se também ao ambiente de almoços/jantares… com música de fundo à mistura, onde a conversa se faz aos pares e quase nunca os comensais da mesma mesa interagem, pois a conversa não é diálogo.
Outros campos poderíamos elencar para percebermos que o silêncio não é uma das melhores caraterísticas dos nossos dias…Quem não tem nada a dizer, fala, fala muito e alto… ou é surdo sem se ter apercebido!

= Não haverá medo do silêncio?
Deixamos uma simples estória, que certamente já muito terão refletido, mas útil no nosso dia-a-dia. 
Um dia um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos:
– Por que gritam as pessoas, quando estão aborrecidas?
Um disse: gritamos porque perdemos a calma. Outro retorquiu: porque desejamos que a outra pessoa nos ouça.
O pensador respondeu:
– Sabem por que se grita com uma pessoa, quando se está aborrecida? A razão é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito e para poderem cobrir essa distância precisam de gritar de modo a poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem mais fortemente têm de gritar para se ouvirem uma à outra através da grande distância… Por outro lado, sabem o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas? Não gritam, falam suavemente! E por quê? Porque seus corações estão mais perto, a distância entre eles é pequena e, às vezes, os seus corações estão tão próximos que nem falam, só sussurram. Aliás, quando o amor é muito intenso nem sequer é preciso sussurrar, basta apenas olhar, pois os seus corações entendem-se… porque estão muito próximos!

= Aprender o silêncio, hoje
De facto, o silêncio não é ausência de barulho, mas antes espaço livre para escutar o outro e não para lhe impor o nosso falar… assim poderá haver diálogo. Mas porque estamos excessivamente cheio de nada, há confusão às mínimas palavras, podendo gerar-se conflitos de interesses egoístas ou guerras de solidões.
Biblicamente diz-se de Maria: “Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração… Sua Mãe guardava todas estas coisas no seu coração”! Ora, quem mais tinha coisas para dizer e ficava no silêncio! Quem mais tinha boas notícias para comunicar e ficava em silêncio saboreando tudo em seu coração! Quem como Maria tinha tanto a falar e estava contemplando em seu coração o seu Deus!
Não tenhamos medo do silêncio verdadeiro, mas antes temamos o excesso de barulho, que, por vezes esconde a superficialidade e a falta de consistência do que se pretende dizer… de vazio, inútil e oco!




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