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E depois da troika?

O sr. Presidente da República chamou a atenção, há tempos, para os problemas económicos, financeiros e sociais dos portugueses, depois da troika se ir embora. Ironizou-se sobre esta preocupação e até houve alguma contestação de vários quadrantes políticos por entenderem que era prematura a preocupação e o que era de discutir era a situação atual e não as “profecias” de Cavaco Silva. A preocupação parece-me legítima, embora a discussão me pareça escusada. Depois da troika nos deixar, a vida dos portugueses ou se limita a gastar o que produz, ou entra novamente numa espiral de dívidas. Tão simples isto me parece, que qualquer discussão à volta do assunto parece-me um passatempo maldito com aspetos de labirinto.

Paulo Fafe
6 Jan 2014

“Quem gasta o que não tem a pedir vem”, diz o povo; isto é tão nítido que até tenho medo de ter razão e ver a questão com esta clara singeleza. Se depois da troika continuarmos a gastar mais do que aquilo que temos como país e como família, só nos resta o caminho do endividamento, seguindo o mesmo fim que nos levou a estender a mão de pedinte aos nossos atuais credores. Mas haverá quem duvide disto? Francamente só por maldade é que se pode pedir ao governo que pague mais salários, melhores reformas, mais saúde, mais exército, mais empregados públicos, mais marinha, mais isto e mais aquilo, sem nos questionar se o rendimento nacional dá para pagar mais e mais, a tantos mais! Não compreendo esta ideia de filho que exige dos pais sem lhes perguntar se podem dar. Se temos forçosamente de ganhar menos, de termos reformas menores, então como vamos viver? De uma maneira muito simples; viveremos com preços menores. Se a mão-de-obra se torna mais barata, devido à baixa de salários, se o comércio só vende se for a preços acessíveis, se o industrial só coloca os seus produtos se o comércio lhe der sinal de poder vendê-los, então, os produtores terão de produzir mais barato, o comércio de vender com menores lucros e os produtos ficarão ao nível do novo poder de compra. Baixando tudo, tudo fica na mesma. Para salários pequenos, preços pequenos. É a derrota do capitalismo na sua expressão mais exploradora. É a realidade a vencer a ideologia. Dantes uma casa comercial levava anos a consolidar-se. Teremos que lá voltar. A chamada almofada social já se não faz pela doutrina da resignação, mas pela dignidade pessoal, isto é, pelo poder de compra. Ora, se este for restabelecido através da combinação preço/possibilidade de compra, a sociedade deixa de se agitar restabelecendo-se, assim, a coexistência. Nesta fase de transição em que vivemos, os sindicatos teimam em manter ordenados de dantes, num mercado em que os preços de dantes já começaram a baixar. Ora nenhuma sociedade pode viver com um pé no passado e outro no presente. Era bom termos ordenados altos com preços baixos. Não se podem baixar preços sem baixar salários. Quando alguém me diz que o salário mínimo num país estrangeiro é o dobro do português, não diz quanto custa lá almoçar fora de casa, quanto custa o arrendamento de um andar, quanto custa um bilhete para o teatro, quanto custa veranear, ou o preço de um café. A economia e as finanças são os dois pratos da mesma balança, equilibrando os rendimentos com os gastos. Se o prato dos gastos for mais pesado que o dos rendimentos estramos em dívida. Portanto, quando a troika for embora, ganhamos a independência económica, mas não ganhamos a fartura do período que a antecedeu. Se quisermos viver como ricos, teremos de fazer de Portugal um País rico. O resto são tretas.




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