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Semear o futuro

Do pensar ao fazer vai uma distância que pode esgotar uma vida. Quantos de nós se perdem em planos e perspectivas de vir a fazer isto ou aquilo, no adiar da mudança que sabemos necessária e que a vontade e a rotina empurram para um horizonte que pode não caber já na vida terrena? Vem esta breve reflexão a propósito de coisas comezinhas. Quem faz da agricultura a sua vivência, tem um apurado sentido de oportunidade. Como já aqui escrevemos, a luz e a temperatura marcam os ciclos da vida vegetal e condicionam, assim, os calendários da realização dos trabalhos no campo, não se compadecendo com demoras excessivas.

Fernanda Lobo Gonçalves
5 Jan 2014

Há dias atrás, recebemos a visita de um familiar agricultor que, sinal dos tempos, veio, da aldeia à cidade, passar uma temporada connosco, para esconjurar a solidão e celebrar as festividades natalícias. Nós, que andávamos há já muito tempo a planear semear umas “curiosidades” no quintal, fomos surpreendidos pela sua resolução e, em menos que nada e devidamente equipados, já estávamos a limpar o terreno dos caules das couves do ano passado, a raspar o “estono”, a virar as leivas, a lançar um pouco de adubo coberto com dois dedos de terra e a aninhar as sementes das favas. Assim, bem aconchegado no ventre da terra e com água e alimento nas reservas da semente, o embrião irá desenvolver-se e transformar-se em planta e dar saborosos frutos encerrados em confortáveis vagens.
E é isto. A determinação quase inata de um agricultor, juntou-se aos nossos planos de cultivo da horta e o que havia sido planeado, fez-se. Sem adiamentos, sem mais planos sobre planos. Curiosamente (ou talvez não) acertámos com o que diz a tradição: semeámos as favas no minguante imediatamente seguinte ao feriado da Imaculada Conceição (8 de Dezembro).
A fava (Vicia faba) é uma leguminosa que, desde há séculos tem assumido grande importância na alimentação dos povos da bacia do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Trata-se de um alimento saudável, rico em proteínas e hidratos de carbono, embora algo pobre em vitaminas. Pode atingir mais de 1,20m de altura e produz grandes flores brancas, rosadas ou roxas. É uma planta dos dias frios, resistindo bem a temperaturas baixas, embora goste de luz directa, pelo menos durante parte do dia. O solo deve ser bem drenado e fértil.
Lá para a Primavera (segundo o povo “Maio as dá, Maio as leva”) poderemos então disfrutar do prazer de saborear os frutos do nosso trabalho. Acompanhadas do entrecosto de algum bácoro menos afortunado e sem esquecer a rega com um bom azeite virgem, que há-de ainda, por estes dias, estar a escorrer do lagar.




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