Fotografia:
A falta de sorrisos nas pessoas de costas

O ano de 2014 ainda mal começou e já ofereceu aos portugueses o resultado de um estudo universitário. Nem durante as férias os académicos concedem tréguas à nação. É por isso que, graças ao Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade Fernando Pessoa, foi possível ficar a saber que a análise de quase 400 mil fotografias publicadas na imprensa em 2013 permitiu ao chefe deste organismo concluir que os resultados da observação revelam uma expressiva diminuição na frequência e intensidade do sorriso.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
5 Jan 2014

Olhando para fotografias de jornais, o pomposo Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde não se sente autorizado a tirar apenas conclusões sobre as fotografias ou sobre os jornais; ele dá um extravagante salto para fazer considerações sobre a população em geral. Diz a notícia do Público de sexta-feira que, segundo o estudo revelado no dia anterior, “os portugueses sorriem muito pouco, o que aponta para uma “‘drástica e preocupante diminuição na frequência e intensidade do sorriso’, sobretudo nos últimos dois anos”.

Qualquer alma não muito entendida saberá que as fotografias que a imprensa publica, escolhidas pelos editores em função do leque de opções que os fotógrafos, as agências ou “os cidadãos-repórteres” lhes disponibilizam, nada ou pouco dizem sobre os portugueses em geral. No entanto, para o chefe do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde, as fotografias permitiram, helás, comprovar “que um dos moderadores da frequência e intensidade da exibição do sorriso é o contexto social, o que se verificou no caso português, pois a situação económico–social potenciou a inibição da expressão, sendo que o género e a idade são os outros dois moderadores”. No laboratório referido, aquilo que deveria ser somente o trabalho dos editores de fotografia é transformado em algo que é “muitíssimo preocupante em termos de saúde dos portugueses”.

Embora excêntricas, há nas conclusões públicas do Laboratório um potencial interpretativo que talvez alguns não queiram desdenhar. Os linguistas poderão avaliar o léxico dos portugueses a partir do vocabulário usado nas palavras cruzadas e os economistas poderão apurar de que modo os portugueses aplicam o dinheiro, fazendo deduções a partir de imagens como as dos mealheiros de lojas chinesas que se encontram na página 16 do Público de sexta-feira.

No dia em que divulgou o estudo, o jornal veio tornar mais complexo o trabalho do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde. De facto, como se poderá estudar a “expressão facial da emoção” do Presidente da República neste início de ano, se uma enorme fotografia apresenta, na página quatro, de costas o supremo magistrado da nação?

Tomando como campo de investigação a mesma edição do Público, não é, todavia, auspicioso constatar que uma grande parte dos fotografados – e não só Cavaco Silva – é exibida de costas. Na primeira página, a única notícia com direito a fotografia, relativa ao resgate dos passageiros de um navio preso no gelo na Antárctida, mostra meia dúzia de pessoas de costas; uma das imagens do texto sobre o alargamento dos cortes aos pensionistas e aos funcionários públicos é de uma senhora, já com alguma idade, de costas; de costas estão também duas das pessoas inquiridas numa audição numa comissão de inquérito da Assembleia da República. Na página 22, há mais pessoas de costas.

Eloquente é estarem de costas a rapariga que olha para o fogo-de-artifício num texto de opinião sobre o estado do mundo e de Portugal e vários alunos num artigo sobre os direitos humanos e a educação inclusiva. Há muita gente de costas na imprensa portuguesa. Também na fotografia que, ontem, ilustrava a manchete deste jornal, que aludia a sinais de esperança para este ano, se multiplicavam as pessoas de costas. Se apenas o sofisticado Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde se sentirá à-vontade para usar estas fotografias para retirar informação sobre a “expressão facial da emoção” dos portugueses, qualquer leigo poderá achar que elas nos indicam a expressão corporal do sentimento que prevalece neste país de costas para o futuro no dealbar de 2014.




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