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Um olhar em redor

Actualmente, prezado leitor, já não é inteiramente correcto dizermos que “o sonho comanda a vida”, conforme o verso feliz do poeta António Gedeão. Com efeito, na via pública e nos tempos que correm, não há lugar para sonhos e todo o cuidado é pouco. Vejamos: é ou não verdade que o vulgar cidadão tem já o seu caminho traçado, ou aberto, não indo por onde quer mas obedecendo aos semáforos disseminados por todos os cruzamentos, os quais tudo comandam, pessoas e carros, dispondo aquelas (um luxo) de passadeiras próprias que devem pisar somente quando o pequeno boneco verde se acende sob pena de ser colhido (ai, o exuberante civismo de alguns condutores, o seu respeito pelos peões!) e, mesmo assim, tendo esse cuidado, não fica isento de ver estacar quase encostada a si uma qualquer viatura, após uma travagem brusca do condutor quase em cima da linha limite da passadeira estendida no chão ou, melhor dizendo, pintada no pavimento de um lado a outro da rua, com faixas pretas transversais, sugerindo uma enorme pele de zebra para o efeito estendida no chão?

Joaquim Serafim Rodrigues
4 Jan 2014

Ai, lá está o sonho, apesar de tudo, em contraste com a matéria sem conteúdo espiritual, ou seja, o produto da nossa fantasia, da nossa imaginação, dos nossos devaneios (no bom sentido) enfim! E mal de quem os não tenha – morreu há muito e não deu por isso.
Contudo, e não obstante estas considerações, redobre o seu cuidado, caro leitor visto que, se por azar seu for aí colhido (numa dessas “zebras”) e se nessa altura levar consigo um jornal na mão ou debaixo do braço, pode acontecer-lhe que alguém, servindo de testemunha ocasional e prestável do acidente, talvez até duas, já que a primeira induziu a outra, acabe (ou acabem) por garantir a pés juntos que o transeunte colhido ia a ler o jornal distraído, caso contrário teria evitado, muito a tempo, que o carro embatesse nele. Ressalve-se, aqui, por amor à verdade, o papel da testemunha, a qual, muitas vezes, descreve não aquilo que viu mas sim aquilo que julga ter visto.
Face ao exposto e com base nisso, a Companhia Seguradora que provocou o embate (na circunstância ligeiro) pode vir a cobrar da vítima um dos faróis do carro, partido em consequência do choque, tão prestimosas que são, estas Seguradoras, no acto de receberem as respectivas anuidades, mas relutantes em extremo quando chamadas a pagarem aquilo que devem, o que só se consegue, não raras vezes, pela via judicial.
Quanto às equimoses sofridas pelo atropelado, o melhor é conformar-se com elas, evitando ocupar os tribunais, sobrecarregados com questões transcendentes, algumas à beira da prescrição, devendo dar graças a Deus por ainda estar vivo e ter pago somente um dos faróis, dado que o outro ficou intacto.
Afinal, prezado leitor, um tanto ou quanto inadvertidamente, garanto, ao tocar nestes pontos tão comezinhos, ou triviais, no dia-a-dia de cada um, imaginando uma justiça equitativa, uma educação bem estruturada visando o desenvolvimento harmonioso do ser humano em todos os seus aspectos, intelectual, moral e físico, bem como a sua inserção na sociedade, instituições credíveis, etc., traves-mestras que, sem elas, nenhum país conseguirá impor-se nem servir de exemplo, muito menos ainda fazer-se respeitar, fez-me acordar, desolado, duma espécie de sonho inefável em que, por certo, eu mergulhei ao iniciar esta crónica agora mesmo dada por finda.




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