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Uma deturpada compreensão da ontologia

Do “Tratado da Fenomenologia do Conhecimento e do Ser” de Nicolai Hartmann (1950), escapa esta afirmação, que me encanta e galvaniza: – Toda a pergunta de cariz filosófico se move para a dimensão Ontológica. Mesmo assim, as reações do meu rosto, ensopado de tristeza, expressaram que um denso nevoeiro de analfabetismo esconde e macula a autenticidade da Ontologia, saída das vibrantes cordas, um tanto ou quanto desafinadas, do pensamento violinístico deste e outros filósofos. A reforçar esta afirmação estão as incómodas discrepâncias de sentido entre a fenomenologia de Husserl, a inclinar-se para um Espiritualismo Transcendental e a fenomenologia de Hartmann, debruçada para um Materialismo Transcendental.

Benjamim Araújo
2 Jan 2014

Na minha perspetiva, a plenitude da fenomenologia, que caminha, sem descanso, de superação em superação, vai em demanda de um Espiritualismo Materializado que, afinal, não é mais nem menos que a estrutura transcendental do nosso autêntico ser. A transcendentalidade deste nosso ser termina ao integrar-se no Ser Transcendente, que é Deus, o Ser Absoluto. Deste modo, ao integrar, no ser, a real hierarquia dos fenómenos, implícitos  nos objetos concretos e autónomos, afirmo a autenticidade da Ontologia.
Vou, agora, alinhavar a fenomenologia do conhecimento, em Hartmann que, semelhante a um facho de luz, vem iluminar a teoria sobre a realidade. Esta teoria, de superação em superação, vai-se integrar na grande realidade, que é o ser.
Vou iniciar a sua fenomenologia, partindo destes dois grandes esteios – o sujeito e o objeto – que, na sua autonomia, se enfrentam e nos quais vou prender as argolas que sustêm o conhecimento.
O conhecimento é uma relação de união intencional entre o sujeito (que conhece e recebe) e o objeto (que é conhecido e dá). Deste amoroso concubinato, vai gerar-
-se, no sujeito, uma rechonchuda filha, batizada pelo filósofo Hartmann com o nome de objetivada, para a distinguir do objeto, que a supera em riqueza de significados. A filha é a representação (fenómeno), para cuja génese se une a sensação, que se espelha na imagem sensorial do objeto, com a apreensão da mente, que se manifesta no conceito (ideia, compreensão), saído do objeto. Este objeto é de tal modo fecundo, que pode parir um número indefinido de representações (as objetivadas). Às representações do objeto que ainda não foram apreendidas pela mente, Hartmann chama-lhes irracionais. Para além desta irracionalidade está o ser, que nunca pode ser conhecido, pois prevalece sobre o conhecimento, superando-o.
Vou abordar agora, em Hartmann, a fenomenologia do ser. Para este filósofo, contrariamente aos metafísicos, a sua ontologia vai-se debruçar sobre aquilo que existe de racional nos eternos problemas metafísicos.
O problema fundamental da filosofia é o problema do ser. Hartmann refere quatro esferas distintas do ser: o ser real, o ser ideal, o ser lógico (nas suas relações com o ser ideal) e o ser intencional (nas suas relações com o ser real). O ser real manifesta-se no material, no orgânico, no psíquico e espiritual. O ser ideal é uma realidade em si, distinta e mais extensa que o ser real. É universal.
Pelo seu pensamento, expresso na sua teoria fenomenológica, apreende-se que se deixou arrastar por um unicismo científico; vira a cara à transcendentalidade do nosso autêntico ser e ao ser transcendente(Deus). Descortinam-se, também, umas trevas entre a fenomenologia do conhecimento e a do ser ideal e entre a ciência dos fenómenos e a sabedoria do ser, pela ausência de sintonização. Tal ontologia carece da superação das suas deficiências.




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