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A globalização neste princípio de milénio

Segundo alguns autores, a globalização começou com a internacionalização das relações económicas e culturais na era colonial europeia, há cinco séculos. Portugal foi o pioneiro desse movimento, tornando-se numa nação mundial de que o nosso Camões é o mais eloquente proclamador. Porém, o processo acelerou-se nos últimos 25 anos, com especial incidência nesta primeira década do 3.º milénio – com o desmantelamento das barreiras comerciais, com a explosão da tecnologia informática e a expansão do poder político e económico das empresas multinacionais.

Narciso Machado
2 Jan 2014

 A questão que se coloca é saber se a globalização será um fenómeno positivo ou uma tragédia para a humanidade. O debate ainda mal começou e poderá agudizar-se nos próximos anos, se se agravar o antagonismo entre partidários e adversários da globalização. Trata-se de um debate com muitas facetas, no qual nem sempre é fácil distinguir o cultural do económico e do político, uma vez que os vários aspetos se encontram intimamente ligados.
   Nalguns setores, como por ex. nas comunicações, a abertura de fronteiras teve um efeito muitíssimo benéfico para a humanidade. Atualmente, é muito mais difícil os governos imporem sistemas de censura, como faziam no passado, para manterem os seus povos no obscurantismo informativo e, desse modo, manipularem a seu bel-prazer a opinião pública. A evolução tecnológica tornou curtos os caminhos da comunicação e das notícias.
   A evolução dos meios audiovisuais e das novas tecnologias implica que, atualmente, com um esforço mínimo, os cidadãos de qualquer país possam ter acesso a uma informação diversificada. E, deste modo, os regimes autoritários, empenhados em fazer da informação um ramo de propaganda, veem-se cada vez com mais dificuldades para impedirem a livre circulação das notícias e das opiniões independentes, sem sujeição ao seu controlo. Isso constitui um grande avanço em termos de liberdade e dinamismo democratizador nas sociedades que ainda não conseguiram libertar-se de regimes ditatoriais.
   A revolução tecnológica no domínio das comunicações, para além de ampliar o poder e a vigência da liberdade, abre enormes possibilidades, sem precedentes na história, para difusão de ideias, da literatura, da ciência e das artes, ou seja, para democratizar a cultura, pondo-a ao alcance de amplos setores da humanidade que, relativamente há pouco tempo, o isolamento, a marginalização e a pobreza condenavam à ignorância e à exclusão social.
   A globalização favorece também o diálogo intercultural e interreligioso eliminando o que é acidental e fixando-se no essencial. O prof. Hans Kung, teólogo católico, escreveu no seu livro sobre o Judaismo: “defendo a conversão de todos ao Deus verdadeiro e único, reconhecido de igual forma por cristãos, judeus e muçulmanos”. E no epílogo da obra, apela a uma “grande coligação de crentes e não crentes” e defende a urgência e necessidade de uma “renovação espiritual” que as religiões do mundo podiam promover “se cada uma delas contribuisse, a partir da sua própria tradição, e apesar de todas as diferenças dogmáticas, para uma ética comum para a humanidade”.
    Importa, portanto, definir um denominador comum de racionalidade que nos permita perceber melhor alguns enigmas e desfazer algumas dúvidas sobre a globalização. Hoje em dia, praticamente todas as comunidades religiosas estão, se não a globalizar-se, pelo menos a expandir-se para além das fronteiras dos seus territórios tradicionais. Assiste-se a uma liberalização de trocas políticas e institucionais, científicas, sociais, culturais e religiosas, no quadro imenso de uma comunicação social e cultural acessível a todos à escala mundial.
   A globalização tem de correlacionar–se quer com o pluralismo religioso, quer com o secularismo modernista e pós-modernista, agnóstico ou antirreligioso. Importa afirmar uma ética para a globalização com fundamento válido para todos, sendo que a procura da verdade é um impulso e uma necessidade de todos os homens, como que a voz imediata da sua consciência. A globalização tende a conduzir a atual civilização plural, onde se acentuam as diferenças, para uma civilização singular onde se revelarão os elementos comuns, tornando possível uma conceção coerente da história, com uma a civilização mundial universal.
  A Europa de hoje inspira-se num ideal de tolerância e num grande espírito de abertura a outras civilizações, mas, a obtenção do ideal kantiano de “paz perpétua” é ainda um caminho muito longo e que alguns até dizem ser uma miragem tão ilusória no convívio entre as nações, como a coexistência de comunidades distintas dentro do mesmo território político. De todo o modo, a realidade atual mostra que as coisas são bem melhores do que antes o foram. E a globalização pode tornar-se um enriquecimento, se trouxer a potenciação de um diálogo e de um convívio, respeitoso e fraterno, entre as diversas comunidades, no quadro dos valores universais.




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