Fotografia:
A correlação direitos/deveres (III)

A singularidade do indivíduo não pode afastá-lo da comunidade, caso contrário, corre o risco de se encontrar numa situação de demasiada diferença e de fazer figura de quem está fora do jogo, alguém que, no fundo, atraiçoa o grupo. O indivíduo autónomo, integrado numa sociedade, tem necessidade de leis e de regras de convivência que respeitem os direitos humanos de todos, numa harmonia social adequada. Infelizmente, não é o que se verifica em tantas vertentes da vida em sociedade. É o caso dos reality-shows. Os media colocam tudo no nível de “excelente”, desfazendo o que poderia ser estabelecido como hierarquia objetiva entre os domínios das atividades humanas.

Artur Gonçalves Fernandes
2 Jan 2014

Esses programas, como os produtores dizem (e é essa a sua intenção), promovem “figuras públicas”, mas, no fundo, não passam de “figuras tristes”. Para os media eles são todos equivalentes, ao ponto de o sucesso mediático se tornar, em si mesmo, uma “forma de excelência”. O campo, no que se desenrolam os desempenhos, transforma-se em apoio puro dessa “glorificação”. Há indivíduos que, por objetivos medíocres e fúteis, não estão à altura das suas obrigações e vão, tantas vezes, encontrar refúgio em formas de conduta pessoal e social de auto e heteromutilação. Eles e muitos outros não são transparentes nem límpidos. Precisam de dissipar certas miragens, nomeadamente aquelas que respeitam à capacidade de responder pelos seus atos e pelo lugar que ocupam. O gesto de responder por algo é um gesto de identificação. O indivíduo mais livre é aquele que é capaz de assumir uma diversidade de situações e de papéis responsáveis. As crispações de identidade são próprias das pessoas que já não conseguem articular as diferentes áreas em que se movimentam e que, por essa razão, favorecem a exclusão social, uma vez que não desenvolvem a solidariedade que poderia beneficiar os mais vulneráveis. A pertença a estruturas da comunidade exige uma maior cooperação entre elas e, nomea-damente, entre aqueles que estão inseridos no mesmo grupo. Além disso, é a própria cidadania que exige essa partilha. A cidadania não pode ser simplesmente pensada e exercida só através do poder soberano de depositar o boletim de voto nas urnas. Ela implica a capacidade de participar na mudança social, que é não só constitutiva da estabilidade da sociedade no seu conjunto, mas também do respeito da identidade e da liberdade individuais. A cidadania consiste também no reconhecimento mútuo, no respeito pelos direitos humanos e na compreensão de que partilhamos o mesmo meio social e político. São estas diferenças que permitem, eventualmente, entrarmos tanto em diálogo como em conflito no espaço cívico comum. Se se enveredar pelo diálogo cooperativo, dá-se um grande e valioso contributo para a erradicação das situações violadoras da igualdade de oportunidades e do bem-estar a que todos têm direito e atenuando-se tantas diferenças injustas. Se, pelo contrário, se entra em situações de conflito com os outros concidadãos, essas diferenças agravar-se-ão, ampliando o fosso entre os vários elementos do grupo. Se nós alargarmos estas considerações às relações entre os grandes responsáveis pelo destino das Nações, das Câmaras e das empresas, sobretudo, das públicas, as situações aberrantes no relacionamento com os seus súbditos são demasiadamente notórias. Por causa da sua impreparação e da sua incompetência, as consequências das medidas de gestão por eles tomadas atingem gravosamente a maioria dos portugueses. Muitas dessas decisões são imorais porque violam os princípios e os valores humanos básicos. Como sempre, os poderosos enjeitam os indefesos, os frágeis e os marginalizados, que ainda exploram até ao limite. Como corolário de tudo isto, ainda premeiam o demérito e a corrupção e penalizam o mérito e a honestidade.




Notícias relacionadas


Scroll Up