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Um ano de sacrifícios

Prestes a terminar 2013, o título acaba por resumir o que cada um de nós pode dizer dele. Podemos até fazer um esforço – não é o meu caso – para ser positivo, mas é difícil caracterizar diferentemente o ano que quase se extingue ainda antes de ter terminado esta minha última crónica de 2013 e os caros leitores terem feito uma leitura atravessada do seu conteúdo. A minha resistência ao esforço para colorir um pouco as coisas advém do meu convencimento de que não mudarão com o passar do ano, embora fosse o nosso desejo.

Luís Martins
31 Dez 2013

Só que para mudar é preciso querer, fazer por isso e ter sorte. Quando não se faz o mínimo para cumprir o programa eleitoral, e na verdade o Executivo também não o quis e também não teve a sorte – o que a acontecer seria ao arrepio do que nos diz a teoria económica – não se pode concretizar o desejo. Acresce que não basta dizer que as coisas correm bem para que os cidadãos se convençam disso. É preciso que as coisas corram mesmo bem, o que não foi definitivamente o caso.
Em 2004, Santana Lopes dirigiu-se aos portugueses, quase no final do ano, nestes termos: “O Natal deve ser, sobretudo, um momento em que nos viremos para dentro de nós próprios e para aqueles que, porventura, pior nos tenham feito. Não é fácil perdoar”. A proposta, que se mantém actual, serve para a reflexão de cada um, mas pode ser útil também ao Governo. O Natal marca um fim, mas é, sobretudo, o princípio. O tempo de balanço que sempre se faz no fim de cada ano, bem pode servir para que a política, sobretudo, ao nível do Executivo e do Parlamento, se deixe inspirar pelo espírito natalício. O Natal é verdade. E é de todos. Também do Governo, do Parlamento e dos partidos políticos. E se estas várias entidades seguissem a proposta (ainda válida) do antigo primeiro-ministro, aquele que disse que “na política também pode haver Natal”?
Em Dezembro de 2012, o actual primeiro-ministro disse-nos, alto e bom som – está gravado, não o pode desmentir – que, apesar de se não poder cantar vitória sobre a crise, estavam lançadas “as bases de um futuro próspero” e que estaríamos “muito mais perto” de “declarar vitória sobre a crise”. Passou um ano e nada. A impressão que nos fica – diria, antes, convicção – é que estamos pior. Vivemos pior os que temos emprego. Vivem pior os pensionistas. Passam ainda pior os que não têm trabalho. Há hoje mais pobreza. O país está empobrecido. Bom, há uma excepção: há mais ricos e mais endinheirados. O Governo não reconhece nada disto. Os números têm-nos sido apresentados sem escrúpulos. O último exemplo foi o primeiro-ministro ter vindo à televisão dizer que de Janeiro a Setembro se criaram 120 mil postos de trabalho, quando na verdade, se criaram apenas 22 mil. Na mesma comunicação foi dito que o desemprego jovem tem vindo a descer mês a mês, quando, na verdade, apesar de ter havido alguma variação positiva pontualmente, continua acima do registado no final de 2012. A versão do Governo no que respeita ao PIB também não tem consistência com a realidade, continuando bem abaixo da evolução do PIB da Europa em termos homólogos. A dívida directa do Estado continua a crescer a um ritmo superior ao do tempo de Sócrates: de 172 mil milhões, já vamos em 209 mil milhões (valores de Novembro).
Natal é tempo de reflexão e de vida nova. Se o Governo tivesse em conta as palavras de Santana Lopes estaria a fazer um exame de consciência e a parar de mentir. Também a escutar os cidadãos e mais quem sabe e tem capacidade para ajudar a resgatar o país. E a pedir desculpa por não ter cumprido o prometido e ter faltado à verdade. E ainda a fazer um propósito sincero e firme de emendar a mão e o discurso no futuro próximo. Desde agora.
Perdoar é, de facto, difícil. E muito mais, depois dos sacrifícios a que fomos sujeitos, sem que tenha havido o equivalente em resultados. No entanto, “na política também pode haver Natal”, e acrescento eu agora, mesmo que isso signifique deixar o poder e fazer uma cura na oposição.




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