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Saudemos 2014

Há oito dias, neste espaço, escrevia sobre a Ceia e traçava um quadro pouco azul onde a alegria empanava nas realidades de vivências do nosso quotidiano. Hoje escrevo porque amanhã, entre risos, champanhe ou vinhos capitosos se levantarão as taças para brindar ao ano menino, 2014. Pois que seja assim, já que assim obriga a tradição. Há sempre, no começo de um novo ano, “um canto que se desgarra” e perde na esperança. Julgo que a ânsia de ver mais e melhor prende-se com a ideia de que não há mal que não acabe ou bem que sempre dure.

Paulo Fafe
30 Dez 2013

Sem fazer previsões, porque sempre me aborrece vê-las ou ouvi-las a quem para isso se ache predestinado, o ano que depois de amanhã começa vai ser igual ao que amanhã se acaba: a economia portuguesa ditará o nível de vida dos portugueses e ela pautará o seu nível de vida. Sem ter para dividir nunca haverá que repartir. O país continua “alegre e contente” porque recebe da troika mais um cheque de milhares de milhões e, enquanto uns batem palmas e até se vangloriam com a conceção, eu penso, mais uma dívida que teremos de pagar e mais uns juros que nos vem empobrecer. Se este dinheiro fosse mercadoria reconvertida em mais dinheiro, a coisa seria boa, mas ao que se vai vendo, este dinheiro não se reconverte em nada a não ser em mais dívida. Nós temos de sair deste ciclo maldito de pedinte que quanto mais pede mais deve. Só há uma saída: trabalhar para mercados que nos comprem. Diz-se que os portugueses lá fora são de sucesso. Por que razão o não são aqui? Muito simples, porque lá fora há mercado certo para aquilo que eles produzem, porque é um mercado grande; aqui produz-se muito antes de saber se há mercado. Sabe-se que o mercado nacional além de pequeno é de pouco poder de compra. Mesmo assim, se o vizinho tem uma tenda que vende razoavelmente, então vou montar outra ao lado. Resultado, ambos empobrecem. É preciso ir lá fora, talvez muito longe da Europa, procurar os compradores, conquistá-los e competir com outros concorrentes. Como herdeiros de navegantes que somos, temos de ir de terra em terra e lá estabelecer os nossos produtos. Este ano, que agora começa, oxalá se torne menino precoce e veja que o futuro de Portugal e dos portugueses não está nos empréstimos, está na política das exportações. O que precisamos é de indústrias que exportem porque só essas podem dar o trabalho de que todos necessitam. Agora é tempo de vender muito, ganhando pouco em cada unidade e não ganhando muito em poucas unidades. Esse tempo passou e deu a austeridade que temos estado a suportar. Os gurus da economia expansionista sabem hoje que no final chega sempre a hora em que o boom dos créditos dá o boom dos débitos. Sempre chega a hora  da economia restritiva. O ano que aí vem terá de ser o ano do equilíbrio entre as duas economias. O ano mix ou o do bom senso. Saúdo-o assim. Formulo um desejo: que o menino 2014 liberte  Portugal, como o Menino de Belém libertou  o Homem de toda e qualquer escravidão.




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