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“A justiça está antes da caridade”

Há cinquenta anos, a caridade abundava nas páginas do Diário de Lisboa. Muito caritativos eram, por exemplo, os Carlos e os Manuéis. Dizia uma notícia que “o Grupo Onomástico “Os Carlos” distribuiu na sua sede, a trezentos Carlos pobres, um bodo constituído por géneros de mercearia e conservas. Às 16 horas, foram distribuídos brinquedos e bolos por todos os “Carlitos” associados”. Os Manuéis foram bastante mais modestos. “A direcção do Grupo Onomástico ‘Manuéis de Portugal distribuiu ontem, como nos anos anteriores, um bodo de Natal. Foram contemplados 100 pobres inscritos na secção de beneficência da colectividade”, informava outra breve.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
29 Dez 2013

São inúmeras as iniciativas de bem-fazer (como se dizia em português caritativo), que o jornal registou. Às vezes, tudo era simples, como no caso da comissão de beneficência do Grupo Dramático Lisbonense, que distribuiu na sua sede, na Rua da Cruz, “um bodo às velhinhas suas protegidas”. Noutras ocasiões, a tarefa era complexa. Na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, “está a ser organizada a lista das famílias a contemplar com o Bodo de Natal, o qual só poderá ser distribuído nos primeiros dias de Janeiro, em vista do grande número de petições recebidas e que, por esse facto, carece de cuidadosa ponderação a fim de atender às mais necessitadas, se não for possível atender todas as famílias que pediram a atribuição dos benefícios”.
Afastando-se do espírito natalício, o Grémio dos Retalhistas de Mercearia do Norte ditou que, por alegada ordem superior, os merceeiros não oferecessem prendas de Natal aos fregueses, o que mereceu a reprovação do Diário de Lisboa. Assim como não se proíbe que se pratique a caridade, também não se devem impedir os comerciantes que o queiram fazer de praticar um acto de cortesia para com seus clientes, reclamou o jornal. A ordem para acabar com a “consoada” do Natal é particularmente incompreensível “num país de pedincha, como é o nosso, em que constantemente se organizam, e muito bem, comissões de senhoras caritativas que pretendem contribuir com os óbolos dos outros para a felicidade (relativa) do seu semelhante”.
Um ano antes, Sophia de Mello Breyner Andresen tinha descrito, nos Contos exemplares, uma dessas senhoras caritativas. Chama-se Mónica e, tendo renunciado à santidade, dedica-se com grande dinamismo a obras de caridade. “Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome”.
Hoje, as comissões de senhoras caritativas, que ajudam o próximo com o dinheiro alheio, foram, em grande parte, ultrapassadas pelo dinamismo dos departamentos de marketing, que, ao que parece, supõem que os pobres comem e mudam de roupa uma vez por ano. Nas montras das agências de um banco, pode, por estes dias, ler-se: “Vamos doar o maior cabaz de alimentos. Entregue aqui!”. Não doam, portanto, nada. Reencaminham o que outros entregam. Assim arranjam um modo expedito de conseguir publicidade de borla à custa da caridade dos outros.
Mas voltemos à nota do Diário de Lisboa, que terminava com uma crítica irónica e aparentemente um pouco ousada em tempos de censura prévia. O fim da consoada oferecida pelos merceeiros, garantia o jornal, desviava-se da linha tradicional dos nossos costumes, “que vem desde a sopa distribuída à porta dos conventos e vai até às luvas caridosamente atribuídas a alguns necessitados que precisam de oferecer à esposa um novo casaco de peles e a eles próprios um novo Mercedes que substitua o velho e antiquado Cadillac”.
Mesmo quando, como hoje, de novo, é tantas vezes apenas oferecida como um espectáculo de marketing pessoal, empresarial ou institucional, a caridade é muito bem vista, esquecendo-se, todavia, algo essencial, que o Papa João XXIII tão bem lembrou em certa ocasião, recordada há dias por Sarah Adamopoulos no blogue Um redondo vocábulo.
João XXIII, “que tantos por estes dias evocam a propósito dos modos e dizeres do Papa Francisco”, cruzou-se com um trabalhador do Vaticano. Parou e perguntou-lhe como lhe corria a vida, “ao arrepio daquele que a sua entourage de conselheiros considerava ser o melhor comportamento para um Papa”. O homem respondeu que ia mal. Indicou o montante do salário e o número de bocas que tinha em casa para alimentar com esse dinheiro. João XXIII disse ao trabalhador que isso teria de ser alterado e que ele, o Papa, tinha poder para o fazer. Mais tarde, quando, ao tratar do assunto, foi informado que o aumento do ordenado só  se poderia realizar à custa de um corte em alguma obra de caridade, o Papa João foi eloquente, dizendo que, se assim teria de ser, assim se faria porque, explicou, “a justiça está antes da caridade”.
Se a caridade abunda, que não seja porque a justiça escasseia.




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