Fotografia:
Um olhar em redor

Não disponho de palavras que traduzam suficientemente a minha emoção, muito menos ainda a minha irreprimível repulsa, ao contemplar num jornal diário de grande circulação a imagem da saída do último navio construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, precisamente um navio de patrulha oceânica (NPO) destinado à Marinha de Guerra Portuguesa. Foi o segundo desta classe a ser entregue, visto que a construção dos restantes seis constantes da respectiva encomenda já tinha sido anulada pelo actual Governo ao dar seguimento ao já previsto processo de reprivatização actualmente em curso.

Joaquim Serafim Rodrigues
28 Dez 2013

Se é certo que “uma imagem vale por mil palavras”, esta confirma tal asserção de um modo inequívoco: no cais, vários trabalhadores dos Estaleiros, contemplavam com tristeza a saída do barco barra fora, acenando-lhe num derradeiro adeus como se vissem partir para sempre algo de si próprios, ou não tivessem sido eles que lhe deram existência, com aquele empenho e competência nunca postos em causa relativamente a qualquer uma das cerca de duzentas embarcações por eles construídas.
Aqui chegado, não faltará quem conteste aquilo que, convictamente, assevero: Ah, e o caso dos ferries açorianos – não fala disso o cronista?… Falarei a seu tempo, caro leitor se, entretanto, não se importar que eu prossiga.
Encontrava-me em Viana do Castelo precisamente quando foram criados os Estaleiros, decorriam então os anos quarenta (foi na Princesa do Lima que vivi os melhores anos da minha juventude, lá tendo prestado também serviço militar no antigo Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5) e, destinado aos Estaleiros, veio de Lisboa imenso pessoal qualificado, incluindo quadros superiores, engenheiros, etc. Toda esta gente, alguma trazendo a família, animaram e deram um grande impulso à cidade, como é de calcular, criando rapidamente amizades e tendo sabido, igualmente, cativar simpatias, com projecção nos filhos de alguns deles, vianenses de gema portanto. Daí, todo aquele meu intróito emotivo e sincero!
Tentando agora não me dispersar, correndo o risco de “perder o fio à meada”, pergunto: face ao modo como se apresenta esta situação, a qual atinge não apenas a cidade mas toda a região (tenhamos em conta outras empresas e seus trabalhadores que colaboram com os estaleiros), qual a posição assumida pelo Governo? Muito simples, segundo as palavras do próprio primeiro-ministro: Procurar convencer algum empresário privado a adquirir os estaleiros para os reestruturar e dar-lhes visibilidade. Nem mais! O Estado, governado por políticos incompetentes e não sabendo, portanto, gerir convenientemente empresas importantes, abstém-se, ou desfaz-se delas (vide caso dos CTT).  E o Presidente da República não teria também uma palavra a dizer sobre tão magno assunto? No entanto, conhecendo o seu modo de (não) actuar em questões melindrosas, que poderiam os vianenses esperar dele?! Teve alguma intervenção, ou moderou, por exemplo, um possível acordo entre os Estaleiros e o Governo Regional dos Açores no caso dos ferries Atlântida e Anticiclone, mediante um desconto aceitável no tocante aos valores da respectiva encomenda? Absteve-se igualmente, como se tudo isto lhe tivesse passado ao lado!
Agora e quanto aos leitores menos prevenidos: as máquinas que accionam ou imprimem a respectiva velocidade aos navios são feitas no estrangeiro e não em Viana, podendo acontecer, como aconteceu e sem que houvesse antecedentes, qualquer pequeno desfazamento relativamente à velocidade final previsto no contrato. O Atlântida não atingia as 16 milhas previstas mas apenas, salvo erro, 14 ou 15. E daí? Carlos César encomendou aos Estaleiros de Viana dois navios para efectuarem as ligações entre as diversas ilhas do arquipélago ou dois vasos de guerra cuja velocidade e poder de fogo são fundamentais? O Atlântida é um magnífico navio, bem acabado e cheio de comodidades e conforto para os passageiros, bem diferente dos que fazem essas ligações, os quais por vezes nem conseguem efectuá-las durante dias a fio face às condições de mar naquelas paragens do Atlântico. Quem conhece os Açores, e eu estive lá vários meses, sabe muito bem que é assim. O Atlântida nunca ficaria retido – a 8, 9 ou dez milhas por hora chegaria sempre ao destino.
O Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, ao vibrar essa punhalada nos Estaleiros de Viana do Castelo ficou para sempre ligado à morte definitiva dos mesmos. E revelou, também, não possuir um mínimo de sensibilidade ou sentido de Estado. Ou será que os Açores já se tornaram independentes?
E é tudo, por hoje.




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