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“Comércio”, o pulsar de uma cidade

Promovido pela Associação Comercial de Braga, em parceria com a CMB, surgiu no início do novo século, na nossa cidade, uma campanha que visava promover o comércio tradicional. Para o efeito, foram espalhados panfletos e outro material de divulgação, de entre os quais grandes cartazes, (ostentando a figura de um guerreiro romano trajado a rigor, exibindo um saco de compras – depreende-se – efectuadas nesta Augusta cidade), nos quais se lia: «há dois milénios que o centro de Braga é o palco privilegiado para as melhores transacções comerciais. Os romanos tiveram essa visão e os bracarenses cumpriram essa missão. Não é por acaso que Braga é a capital do comércio», “ipsis verbis”.

Narciso Mendes
27 Dez 2013

Gastaram-se alguns milhares de euros a panfletar a cidade e arredores, até à vizinha Galiza, no sentido de atrair potenciais clientes para ver se algo mudaria em termos de procura, dada a estagnação comercial que começava a atingir foros de uma preocupação que urgia medidas adequadas. Para isso, foi necessário levar a cabo a modernização dos estabelecimentos comerciais através do programa “MODCOM”, com incentivos a fundo perdido. Pelo que, a partir daí, lojas lindíssimas eclodiram, algumas delas em vetustos prédios, como remendos de pano novo em fazenda velha. Contudo, a cidade ficou mais atrativa e “fashion”, segundo os requisitos de exigência impostos pelo paradigma de consumo. Sendo que, apesar desse esforço, os frutos daí colhidos foram parcos e breves, uma vez que a crise económica e financeira que, entretanto, ao instalar-se no país, com as dificuldades daí resultantes, afetou de forma evidente o rendimento disponível das pessoas, sobretudo das que se viram sem o emprego, deixando as lojas praticamente desertas.
Como vem acontecendo com tudo um pouco no nosso país, aquela estratégia foi pouco pertinaz, uma vez que tudo piorou sem que se voltasse à carga da revitalização comercial, para atrair potenciais clientes. Aliás, a convicção e empenho foi de tal ordem que no ano da difusão de “O comércio está no centro”, fomos brindados no Telejornal de TV portuguesa com uma entrevista, de rua, a um responsável da ACB que fazia as compras de Natal, com a família, numa cidade espanhola, enaltecendo a sua preferência em comprar lá traindo, em absoluto, a “missão” aludida nos referidos cartazes.
Algumas das razões desta “dolorosa agonia” do comércio tradicional de  Braga, já as denunciei neste jornal diário, em devido tempo. No entanto, nunca será demais lembrar que o seu epicentro teve origem numa falta de visão de quem presidiu aos destinos desta cidade durante décadas que, contagiado pela febre da especulação imobiliária e expansionismo a qualquer preço, sem  um planeamento harmónico e regulador quanto aos licenciamentos das grandes e médias superfícies comerciais, bem como com a proliferação das grandes lojas chinesas na periferia, acabou por contribuir para o asfixiamento da vida comercial citadina.
A desertificação da cidade, em termos de residentes, devido às oportunidades perdidas na reabilitação dos prédios urbanos degradados, em tempos de fluxos de fundos comunitários, levou a que Braga perdesse vitalidade. Ora, só com habitantes e um comércio vivo e dinâmico se sente o pulsar de uma cidade, pelo que necessita de iniciativas que o revitalizem e o façam prosperar. E é de saudar a decisão do actual executivo de integrar o município bracarense na ATP (Associação de Turismo do Porto), colocando a marca “Braga” nos roteiros internacionais de turismo. Como também seria vantajoso voltar a procurar atrair o vizinho povo da região galega, mas com um forte impacto, pois a teoria que paira por aí de que somos povos parecidos, sem termos presente a agressividade comercial em Espanha, bem estruturada, organizada e potencialmente superior à nossa, de pouco valerá.




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