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Viver Natal

1 Como noutros anos, mas este talvez de uma forma mais notória, o aproximar-se do Natal fez despertar gestos de solidariedade em pessoas e em instituições. Solidariedade a que nem sempre me julgo capaz de chamar caridade. Solidariedade feita espetáculo. Solidariedade ao som de sinos e de trombetas. Solidariedade onde não apenas a esquerda mas também os restantes órgãos deste corpo que é a sociedade são despertados para tomarem conhecimento do que faz a direita. 

Silva Araújo
26 Dez 2013

2. É verdade que vivemos tempos difíceis. Continua por curar a chaga do desemprego, com todas as suas más consequências. Muitos viram reduzidos os seus rendimentos. Pessoas há que não conseguem satisfazer compromissos assumidos.
Houve necessidade de fazer cortes, não sei se, sempre, segundo os critérios mais aconselháveis. Não sei se sempre se tem sabido desprender dos anéis para salvar os dedos. Continua a viver-se muito de aparências e a sacrificar o ser ao parecer. Continuam a fazer-se gastos muito discutíveis. Destinam-se verbas para «necessidades» que, na minha perspetiva, – aceito que discutível – não deveriam ocupar as primeiras preocupações dos gestores. É uma das consequências da crise ou ausência de valores que se abateu sobre a nossa sociedade.
 
3. Mas que esta divagação me não afaste do núcleo da reflexão que vinha a fazer, a propósito da badalada solidariedade feita espetáculo.
Vivemos os tais tempos difíceis e quem mais possui tem obrigação de repartir com quem não dispõe do necessário para viver com dignidade. Trata-se, em muitos casos, de um ato de justiça, antes de ser um ato de caridade. Deus criou o mundo para todos. «Pertence ao que tem fome o pão que arrecadas», escreveu no século IV S. Basílio. «Ao que está nu, o casaco que arrumas nos teus armários. Ao que anda descalço, os sapatos que abolorecem em tua casa. Ao pobre, o dinheiro que tens escondido. Cometes tantas injustiças quantas as pessoas a quem os podias dar».
 
Mas que a ajuda aos outros não seja aproveitada para gestos de exibicionismo, de promoção pessoal, de ostentação. Que a ajuda se faça com a recomendável discrição. Que a esmola não humilhe nem ofenda a pessoa que a recebe nem envaideça quem a dá. O pobre, pelo facto de o ser, não perdeu a dignidade de ser humano e de filho de Deus. «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus», proclamou Jesus. A quem tem, é recomendável que dê e que saiba dar.
 
4. Importa lembrar que as necessidades dos mais carenciados se não limitam a um dia por ano. Não é apenas na noite de consoa-da que os mais carenciados têm mesa sobre que devem poder encontrar alguma coisa. E nos restantes dias do ano?
Natal é quando um homem quiser, diz o conhecido poema de José Carlos Ary dos Santos. É imperioso que o homem queira sempre. Que o espírito do Natal – a atenção aos outros, a partilha, a reconciliação, a paz – se viva todos os dias e não apenas durante algumas horas. Todos os dias há pessoas com fome e todos dias é preciso haver quem lhes dê de comer.
 
A solidariedade natalícia traduz-se, normalmente, na distribuição de cabazes e na organização de refeições para que se convidam sem-
-abrigo, toxicodependentes, marginalizados. E as outras necessidades com que as pessoas se debatem? E o agasalho? E os medicamentos? E a renda de casa?
 5. Além da fome de pão há outras fomes. Há também a fome de carinho, de compreensão, de diálogo, de palavras de estímulo, de gestos de encorajamento, de momentos de companhia, de serenidade, de paz, além de outras. E não esqueçamos a fome de Deus.
Há quem tenha fome de pão como há quem, tendo pão em abundância, tenha fome de um sorriso ou de uma carícia. Há pessoas endinheiradas desejosas de verem satisfeitas outras necessidades, como se diz num lindo poema de Fernanda de Castro:
«Olhai, é um pobre milionário.
Uma esmola, depressa, por favor!
Criança, dá-lhe um olhar.
Jardim, dá-lhe uma flor».
 
6. Comecei por falar da solidariedade feita espetáculo. Que esse badalar sirva, ao menos, para despertar a consciência de quem, podendo repartir, nem sequer com espetáculo o faz. Que desperte a consciência de quantos vivem fechados no seu egoísmo e na sua avareza.
 
7. Mas Natal também é tempo de encontro. Jesus é Deus que veio ao encontro dos homens para que os homens, derrubando muros e eliminando ressentimentos, se encontrem uns com os outros.
E Jesus veio para ficar: na Eucaristia, na Palavra, nas assembleias cristãs, nos outros.
Por que será que somos capazes de, no Natal, arranjar tempo para nos encontrarmos e ao longo do ano, em muitos casos, nos ignoramos?
Por que é que o Amor há de estar sujeito a tempos de calendário e não há de ter a liberdade de se manifestar todos os dias?
 
Que o espírito de Natal seja vivido sempre. Que se não esqueçam as fomes de quem tem mesa farta.
Que ao longo do ano, de todo o ano, no outro vejamos sempre um irmão.




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