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Se o país fosse um presépio…

No domingo passado, acompanhei a transmissão televisiva das actividades em curso no presépio de Priscos, o maior da Europa e um dos maiores do mundo. Lembrei-me logo do presépio de Belém. E de que o país bem poderia ser um presépio. Se o país fosse um presépio, haveria mais verdade nos políticos. Podíamos confiar neles, encomendar-lhes, sem receio ou qualquer medo, a representação dos nossos interesses, dos nossos projectos de vida, das nossas propostas e do nosso futuro. Tudo isso podia fazer do país um lugar bom para viver, trazer tranquilidade e segurança às pessoas.

Luís Martins
24 Dez 2013

Como os políticos se rodeiam de consultores de marketing e têm a pré-disposição para nos mentirem, afastamo-nos da vida política, deixámo-los mais sós para fazerem o que lhes apetece e seguirem os seus interesses. Mesmo assim, às vezes convencem-nos. Mas, pouco tempo depois, compreendemos que fomos levados, que fomos atraiçoados num abrir e fechar de olhos. Juramos vingança, mas acabamos muitas vezes por lhes perdoar os ataques que nos fizeram. Quem perdoa é virtuoso, mas neste campo não é a virtude que ganha terreno, mas a irresponsabilidade. 
Se o país fosse um presépio, os políticos fariam política séria, respeitando o património que é de todos. Tratariam da coisa pública como tal e não como feudo privado e pessoal, nem que fosse apenas durante uma legislatura. Certamente que não teríamos os buracos financeiros, que nos tolhem a vida e alguns sonhos e iniciativas, nem as parcerias público privadas, que nos têm desgraçado e nos vão continuar a condicionar fortemente nos tempos mais próximos.
Se o extremo mais ocidental do território europeu se quisesse equiparar a um presépio, haveria certamente mais consenso nas decisões a tomar quanto à saída das dificuldades por que passa o país. O Governo ouviria mais as pessoas, os líderes da oposição e talvez um pouco menos outras instituições, com interesses aceitáveis, é certo, mas marimbadas para a soberania nacional. Se houvesse tal predisposição, o Executivo seria menos exigente no cumprimento do seu próprio programa, desde logo quando não correspondesse à maioria de quem habita o território. Se auscultasse permanente o povo, quem manda certamente teria compreendido isso há muito tempo. Em vez de mandar lixar as eleições, atitude que pode significar desprendimento pessoal, deveria respeitar mais as pessoas, e isso sim, seria estar ao serviço da colectividade.
Bom, para que este rectângulo peninsular pudesse parecer um presépio, seria preciso que por cá houvesse mais humildade no coração de todos. Que se ouvisse quem sabe, quem tem experiência de vida e das coisas da economia e do Estado. Certamente não estaríamos nas mãos de políticos tão verdes, em idade e sabedoria. Ouvir-nos-íamos todos uns aos outros, estaríamos mais determinados no objectivo de todos do que do nosso partido ou movimento político, sem perder de vista, naturalmente, a distinção entre as diferentes perspectivas políticas.
Se habitássemos um presépio, haveria também mais solidariedade. Continuaria, naturalmente, a ajudar-se quem precisa, na medida do que precisa, mas sem que houvesse aproveitamento de uns quantos relativamente ao conjunto. Deixaria de haver aproveitamento pessoal e político da caridadezinha que se pratica em detrimento de uma verdadeira solidariedade. Para termos acesso ao presépio, seria necessário que os que mandam no país, a todos os níveis da hierarquia, deixassem de lado a vaidade de aparecerem na fotografia em pose de quem é rei e senhor do que é de todos e se preocupassem mais em chegar à origem dos problemas e os estancassem.
É verdade, no presépio de Belém nem tudo era perfeito – Maria, por exemplo, não conseguiu, de acordo com os Evangelhos, um lugar digno para dar à luz o Salvador do Mundo – mas depois da mensagem transmitida, há limites que não podem ser ultrapassados.
Esgotou-se rapidamente o espaço disponível para esta crónica. Votos de Feliz Natal para os estimados leitores.




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