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Não deixemos acanhar o Natal

1 Num tempo em que o real só nos desencanta, é natural que sejamos tentados a reencantarmo-nos com o irreal. À partida, nenhuma época parece tão exposta ao irreal como o Natal. 2. Este é, de facto, o tempo em que todos dão ares de ricos. Em que até os que menos têm gastam como se muito tivessem. Em que os presentes se multiplicam por muitas mãos e as presenças se dividem por muitos lares. Este é o tempo em que as palavras ácidas se escondem e as palavras belas ressurgem. 3. Em suma, este é o tempo em que tudo é diferente. Pena é que seja por umas horas. Quando muito, por uns dias.

João António Pinheiro Teixeira
24 Dez 2013

4. O que mais encanta, nesta altura, é a ilusão de uma bondade perdida e, de repente, reencontrada. Por umas horas. Quando muito, por uns dias.
Os sorrisos acendem-se e os rostos até parecem felizes. Por umas horas. Quando muito, por uns dias.
5. E é assim que o Natal nos visita como um enclave de fantasia no meio da tempestade de dores que tinge o quotidiano.
Só que, depois de uns frisos de ilusão, lá sobrevém de novo a desilusão, sempre persistente e ainda mais amarga.
6. Não é este o Natal com que Deus sonhou. Não é este o Natal que Deus quer.
Dizem que o Natal é quando um homem quiser. Eu diria que o problema é os homens raramente quererem o Natal.
7. Este é um tempo de lembranças, mas também de esquecimentos. Há sempre quem fique esquecido.
À força de tanto insistirmos nos nossos Natais, nem damos conta da fonte donde jorra o Natal: o Natal d’Ele, o Natal de Jesus. É por isso que há muitos Natais sem Natal. É por isso que há muitos Natais longe do Natal.
8. Há Natais que parecem um aniversário sem aniversariante. Há muitos Natais acanhados. Há muitos Natais frios, ainda que aquecidos à lareira.
Só haverá Natal na realidade quando mergulharmos na realidade do Natal. E a realidade do Natal passa não somente pelo aconchego do lar, mas também (e sobretudo) pelo desassossego do mundo.
9. O «Glória» até pode ser entoado nas alturas. Mas o Natal mostra-nos que o lugar de Deus também é a terra, o homem e particularmente o homem pobre e humilde.
Foi Jesus que dissipou todas as dúvidas: «Tudo o que fizerdes ao mais pequeno dos Meus irmãos é a Mim que o fazeis» (Mt 25, 40).
10. É isso o que mais evocamos no Natal. É isso o que temos de fazer e não apenas no Natal.
Para que aconteça Natal para lá do Natal!




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