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É noite de Natal!

Estamos no auge da época do ano mais emotiva, de solidariedade intensa, de reflexão e de muita dor daqueles desafortunados que não têm meios para partilharem os festejos natalícios. A noite cai fria sobre o enorme casario da cidade. À mesa, os que podem deliciam-se com a ementa tradicional de um bom bacalhau regado de azeite virgem. Nos lares, anima-se a família para a consoada, num ambiente de belos cânticos adequados ao evento. A criançada não larga os olhos dos embrulhos, são muitas as tentações. A pequenada aguarda, ansiosa, o momento de desembrulhar as prendas que se amontoam junto do pinheiro enfeitado. As crianças não têm a mais pequena noção da crise que flagela a “boa vontade” do Pai Natal para satisfazer os seus pedidos…

Albino Gonçalves
23 Dez 2013

As luzes de cores vivas e variáveis cintilam numa profusão intensa e as guloseimas fazem as delícias sobretudo dos mais novos, enquanto não chega à mesa a fumaça das batatas com a hortaliça para repasto dos convivas. A atmosfera é acolhedora, sociável e simpática. O ambiente convida à paz e à harmonia em nome do nascimento do Menino-Deus. É noite de Natal! Noite da família, do reencontro, do abraço fraterno da saudade.
Lá fora, na noite gélida e escura, ensombra-me o pensamento quando um velho sem-abrigo deambula a passo lento e num estado miserável. Segue pela rua em direção a lado nenhum, ou talvez ao encontro de um sítio capaz de o proteger das baixas temperaturas… A esta hora, tudo está deserto – e o pobre, a tiritar de frio, lá segue o seu caminho até ao seu destino. Sem uma rabanada sequer onde possa ferrar o dente!
Ironia ou não, a porta da igreja abre-se, aguardando a chegada dos fiéis para a Missa do Galo. Quando me acomodo, encontro o pobre sem-abrigo junto à imagem de Nossa Senhora, precisamente ao cimo da porta que dá para a sacristia, ao lado de um brilhante presépio com o Menino Jesus deitado sobre as palhinhas. Olhando-me, sussurrou-me num tom lento e intervalado: “Ao menos Este tem uma casa permanente e não passa o frio e a fome!” Fico estupefacto por saber que na alma deste cidadão abandonado sem dó nem piedade reside ainda um pouco de ternura e de “compreensão” pelo Outro!
Ao ver aquele mendigo, interiorizo alguma revolta… Quantos velhos estão sós, quantas crianças estão abandonadas por este mundo fora? Não havendo amor, alegria e pão, o contexto da injustiça impõe-se como um domínio trágico ao Se Humano…
O nosso país está agonizando, completamente afastado dos discursos políticos, das pessoas que vivem exclusivamente do dinheiro dos contribuintes, que nunca souberam o que é estar (e ser) sem-abrigo, que nunca tiveram falta de uma refeição quente! Portugal precisa de parar para pensar, precisa de mudar este rumo que leva ao abismo social, que lança milhões de pessoas numa situação que as impossibilita de terem uma noite feliz de Natal…
A todos desejo Boas Festas e a vivência de um Natal passado da melhor forma possível. Um Natal sorridente, corajoso, solidário, emotivo – ao estilo do mais belo Menino que veio ao mundo: Jesus. Se todos nós fôssemos um pouco como Ele, teríamos um mundo muito melhor!
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