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A Ceia

Amanhã é dia de consoada. Por muito distante que pretenda ser a evocação dos tempos de menino, vêm até mim embrulhados em saudades como as ondas do mar quando se agigantam. É impossível apagar esse passado. Está escrito com a marca da nossa escrita. A Ceia vem desse passado trazendo na memória a abastança das batatas cozidas com bacalhau e ovos cozidos e couves que as geadas tornaram tenras e a sobremesa com doces com a aletria polvilhada a canela, rabanadas fartas, filhoses fofinhas e mexidos com pinhões e mel; no fim uma espécie de cerimonial: o cálice de vinho do Porto que, nessa noite, os mais pequenos, também estavam autorizados a beber um dedal.

Paulo Fafe
23 Dez 2013

Nesses instantes eu era pai porque o pai tinha na mão direita o cálice do vinho generoso e brindava ao Menino Deus. “Noite de paz, noite silente”, cantávamos todos com enlevo e vontade de honrar aquela pobreza voluntária. No egoísmo desta ventura, o meu entendimento de criança só acordava para os outros, os necessitados quando a minha mãe a nós todos os recordava. Como Pessoa “sinto mais longe o passado/sinto mais perto a saudade”. Amanhã é dia de Consoada; vai também ser uma noite feliz para uns tantos e infeliz para outros. Pensar, como é sabido, começou por ser sinónimo de pesar. Por isso se diz, feliz daquele que não pensa. Mas eu penso nos que perderam o emprego, nos que o procuram há anos e não encontram, nos casais desempregados, nos jovens licenciados emigrados. Penso neles com amargurada impotência, mas desculpar–me-ão, penso mais nos que estão sós e, na solidão sem arrimo, não os encontram os filhos que os abandonaram no lar, o marido ou mulher que morreu e nos netos que os não vão visitar. Vivem chorando o passado, vivem amargurados no presente e não sabem se o futuro chega ao dia seguinte. Desculpem ter mexido nas chagas, mas eram as chagas que minha mãe mexia nas noites de Consoada. Casa de pais escola de filhos. Ela nos dizia que ninguém tinha o direito de ser completamente feliz, enquanto houvesse infelicidade no mundo. O que pressupunha e já então necessitava uma mudança dos processos de humanização que subentendiam o funcionamento social desse tempo. Tempo que passou que acumulou décadas e nada resolveu. Amanhã todos seremos felizes porque amanhã todos seremos novamente crianças. Esta convergência é irredutivelmente uma tentativa para caraterizar o histórico contraste entre a alegria de uns e a tristeza de outros. Nesta noite de consoada, os filhos, os netos  e os sobrinhos  estão  por aqui e por ali como as luzinhas de árvore de Natal e a juventude do presépio. Presépio é para mim a esperança do homem novo que começa naquele menino Deus. É a vida dos contrastes que continua: menino pobre que podia ser rico, menino rico porque quis ser pobre. Seja como sintamos esta noite de Ceia, a noite da Consoada, desejo a todos os leitores do DM e sua família um feliz dia de Natal. É do íntimo do coração.




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